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domingo, 29 de setembro de 2013

A VOZ



Como uma voz de fonte que cessasse,(...)
a voz que do meu tédio nasce”
Fernando Pessoa


Desde sempre que a voz humana constituiu para mim uma referência valiosa sobre o outro. Não que pensasse nisso ou decidisse à partida que tinha de a avaliar para saber quem estava à minha frente. Aconteceu sempre, de forma espontânea.

 Sem que o espere, a voz do outro abre-me o coração, irrita-me, devassa-me ou reverencia-me, conquista-me, indispõe-me, cansa-me, tranquiliza-me, arranha-me o ouvido, acaricia-me ou agride-me.
Num segundo, apresenta-se-me no outro, através da voz, o aliado, o inimigo, o cúmplice, o ser doente ou mal amado, o agressor, o fraco, o perdido, o invejoso, o falso. Como me pode, pela voz, tocar a inconfundível chispa do amor, da criatividade, da força, do estímulo, da autoridade e da ternura em disponibilidade. Por mais que, por vezes, as palavras emitidas pareçam dizer algo de diferente.

Ao tomar consciência destes factos, passei a reflectir sobre a voz, esse primordial instrumento de comunicação, sine qua non, resultado a nível físico de um trabalho conjunto dos sistemas respiratório, digestivo e nervoso, dos músculos e até da arquitectura do esqueleto. A voz é som, vibra no ar, de uns para os outros,  montada na sua intensidade, inflexão e altura. Na forma como as palavras são articuladas.



Sinto, porém, que há muito mais por revelar. Como em tantas outras áreas, acredito que também no caso da voz, misteriosos véus de olvido barram a nossa memória no que se refere ao seu grande poder - íntimamente associado ao que cada um é, em essência – e à sua capacidade interpretativa e de comunicar o estádio em que, momento a momento, nos encontramos na manifestação.

Cada voz desdobra-se em mil vozes, múltiplas e opcionais, que aguardam ser redescobertas e reintegradas na nossa consciência, como valiosos indicadores acerca de quem nos rodeia.

De forma paradoxal, destaca-se de entre todas a voz do silêncio, uma das mais poderosas, pela sua capacidade de por vezes curar o próprio, punir o outro, consentir na injustiça por omissão e sobrepôr-se à compadecida e cálida voz do coração.


Assim, amigos, nem sempre o silêncio é de oiro...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

REMINISCÊNCIA

“A sabedoria não é dada pela vivência mas pela reminiscencia.”

NATÁLIA CORREIA



Ando sempre no encalce de uma certa reminiscência. Dei-me conta disso há algum tempo, ao tentar compreender percursos passados e um certo padrão comportamental recorrente através da minha vida.

Este algo de reminiscente que detectamos nos outros ou em determinadas situações liga-se por vezes de forma mágica ao que lhe é contraparte em nós e estimula-nos – se conseguirmos alhearmo-nos da força do racional – a acções imprevisíveis e até aparentemente absurdas.

A reminiscência, neste sentido, é comparável a uma recordação muito vaga, quase apagada, um resíduo qualquer que, contudo, toca misteriosamente botões-chave em nós. Essa lembrança indecisa é como que retomada pela consciência e por vezes, de forma incontrolável, alcança alturas de verdade transcendente. Transporta-nos irremediávelmente para algo mais acercado do que nos é interior e precioso e desse fenómeno irradia uma espécie de sabedoria que nos conduz por trilhos inesperados.

É como se a fortaleza do sensível nos impedisse de termos acesso, na densidade, ao que deveria ser naturalmente inteligível. Pois aquilo que os sentidos interiores detectam dá-nos forças, nutre o nosso voo interior que chega a fazer-se exterior e revelado, com tudo o que isso implica.

Não me refiro, como acho ser óbvio, ao sentido mais imediato da palavra “reminiscência”, como memória mais ou menos exacta de factos, pessoas, situações já vivenciadas nesta existência. Aponto aqui para algo mais subtil mas infinitamente mais poderoso que nos catapulta com frequência para uma espécie de auto-transcendência naquilo que sempre fomos (ou aparentámos ser até então).

Trata-se de uma identidade, sintonia, dejà vu, reconhecimento (por vezes brutal) de algo ou de alguém, de um horizonte ou circunstância, que faz tocar as sinetas ocultas das nossas células e nos impele numa direcção nova. Frequentemente, o reconhecido nunca chega a ser completamente lembrado, muito se perde aqui na densidade, pois creio ser provável que esses poderosos auxiliares de memória provenham do reino do Absoluto onde tudo está registado e ao qual não temos acesso directo.



O que é certo é que, para mim, detectar essa reminiscência no que me é exterior, constitui sempre estímulo e é fonte de uma certa alegria. Pelo menos de início, quando o milagre se dá.

Depois tudo tem a ver com a continua decisão da alma de buscar o genuino, não obstante as dificuldades e as inconveniências do processo.



Mas vale com certeza o empenho pois, como diz Natália Correia, o sentido sábio das coisas só nos pode ser dado afinal pela reminiscência.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

DISSONÂNCIA COGNITIVA




Mentes. Minto. Mentimos todos.



Numa proporção que é própria de cada um, todos praticamos dentro de nós este exercício de ajustamento da realidade exterior, daquilo que acontece, ao que nela queremos ver.

Os analistas do comportamento chamam a isto “dissonância cognitiva”, a qual assenta numa série de distorções ou pequenas mentiras que nos dizemos para ajustar o resultado (seja ele teórico ou empírico) à nossa visão ou intenção primeiras.



Se formos honestos q.b., notaremos que este fenómeno está presente, por exemplo, em quase todos os debates – ninguém parece estar ali para pôr as suas informações e crenças à prova, mas sim para as confirmar. Assim, tudo é aproveitado no discurso do outro para dar força ao nosso ponto de vista e para validar as nossas crenças. Por outro lado, o que não nos serve, é combatido ferozmente ou, de preferência, ignorado.



Desde negar evidências, alterar ou mesmo criar falsas memórias e distorcer percepções, o ego cria todo o tipo de mecanismos de defesa para que o nível de conflito entre o que se deseja ver e o que na realidade se apresenta diminua e a dissonância perca força. O assunto agudiza-se quando as crenças são antigas e muito enraizadas, pois o nível de sofrimento do indíviduo e a energia necessária para enfrentar a questão e superar a dissonância assumem proporções gigantescas.



Assim, nada como admitir o óbvio: mentimos!

Talvez seja melhor encararmos como pudermos e soubermos o facto em si, próprio da nossa humanidade, do que nos perdermos em conflitos infinitos com o outro, instalados no egóico altar das nossas ilusões.


Trabalhar neste processo exige um esforço de humildade relativa sobretudo à nossa faltosa percepção e a certeza de que há neste mundo tantas visões e sonhos diferenciados quantos os indivíduos que o habitam. Que o nosso ego extravasa os limites da sua competência no nosso processo evolutivo, ao construir teses ilusórias com o fim de manter vivas as nossas crenças e validar-nos no pouco ou muito que vamos aparentando ser.

E que, apesar de tudo, ainda vamos tendo alguma capacidade para nos desmascararmos.
Se quisermos…

segunda-feira, 29 de julho de 2013

TRANSCENDER O TRÂNSITO


Estou de passagem, porém destinada a transcender-me. Estimula-me esta premência de ir mais além de mim, busco a paz que a acção interna requer.
Actividade tenho muita e variada, sou personagem dinâmica e no trânsito pelo planeta faço muitas coisas ao mesmo tempo. Mas falo aqui de outra coisa, de um movimento interior de auto-feitura, como se eu não estivesse acabada em mim mesma e houvesse campos misteriosos por desbravar, vozes por ouvir, a verdadeira vibração da cor por achar.
Chamam a isto ter sonhos, mas ter sonhos pressupõe algo delineado, objectivo. Não sonho com nada. Sonho-me. Sonho-me e esse facto pede uma acção interna, um despertar para o que se não sabe, para o inefável. Como o fugidio cambiante de azulado na luz primeira da manhã que se anuncia, também em mim algo de precioso me escapa quase sempre, facto que pede que eu aja na interioridade para que seja Eu a verdadeira protagonista da minha história e não a personagem em trânsito.
Sinto que isto em mim passa pela palavra, o verbo fundo que ao revelar-se me consolida, ao permitir  a tal “segunda respiração” a que muitas vezes me refiro. Mas esta é uma palavra ainda não falada, a que vibra com a minha própria essência, ela é essa essência e transforma-me quando aflora à minha escrita.

Torna-se difícil escrever sobre o que se não sabe, apenas se pressente. Quando se lida com os fugidios prenúncios do sonho, o auto-sonho e, apesar de tudo, não obstante a consciência das prioridades, há que continuar o trânsito, há que prosseguir na actividade, ser una com todas as partes que me compôem, trabalhar no reequilíbrio possível, aceitar, aceitar, aceitar…
… que a manifestação tem de representar o compromisso entre as origens, o ser socialmente actuante, a consciência em expansão e o sonho de si mesmo. Indecifrável e escapadiço, ele responde contudo à atenção paciente e amorosa, à atitude receptiva de acolhimento do que venha.
Trata-se do que mais próximo conheço da “verdade própria”.



Quadro: Felipe Gutiérrez – A caçadora dos Andes, 1891

sexta-feira, 5 de julho de 2013

CANSAÇO


Nem  a palavra mais pesada poderá significar o que sinto.
De qualquer modo, não a alcanço.  As palavras, todas as palavras parecem ter ficado entaladas no gargalo estreito da minha desesperança.
Lembro-me do poeta morto, reinventado em si mil vezes, a arrastar em palavras mornas o extremo cansaço (Um supremíssimo cansaço,/Íssimo, /íssimo,/ íssimo,/Cansaço…).
Talvez devesse querer qualquer coisa mas o estranho é que eu, a mulher da vontade férrea e das mil invenções, não quero nada. Não anseio por nada e tenho dificuldade em sonhar.
Minto, ainda quero alguma coisa: que me deixem em paz, neste quarto refrigerado onde me alheio da fornalha lá fora. Claro que não me deixam em paz e lá me forço uma, duas, mil vezes ao dia, a cumprir os papéis que de mim são esperados.
Há um vazio, mas é um vazio pesado, aterrador, parece que não há por onde se furar a espessa névoa…
Se ao menos viesses ver-me, falar comigo, podia ser que a vibração da voz ou a tua escrita me arrancassem deste estado que é nada mas que me abafa  os sentimentos.
Mas, porquê te chamo? Para quê se chama alguém se sabemos que isso é só adiamento do que temos de enfrentar dentro de nós, e a solo.

Horror à voracidade de qualquer tipo, ao ruído, ao destrambelhamento, confusões, aos estados febris, ao inglório equívoco de nos etiquetarmos…

Como o Poeta, cansada, infinitamente exausta de tudo, do nada, da impenetrabilidade dessa névoa grossa que se cola a nós, ao ar que respiramos e nos retira o propósito.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

DO FUNDO DA RESPIRAÇÃO




Hoje vou-te escrever como nunca te escrevi. Desfiz o penteado, untei-me de coragem e de franqueza e, encostada na velha chaise-longue, cor dos trigais por esta altura do ano, decidi falar sem nexo.
É capaz de ser a melhor maneira, não achas? Quando procuramos demasiadamente fazer sentido sai tudo muito rígido e, hoje, a minha palavra tem de desabrochar da respiração profunda, dum lugar qualquer ainda não referenciado dentro de mim mas onde o sentir cantarola como uma avezinha ligeira em manhã primaveril. Estranho que fale na primavera, tempo de ressurgimento e de vida, pois sinto-me assim tão cansada e gostaria de ficar muito tempo aqui recostada, o cafetã de seda a acariciar-me o corpo e as palavras a sairem como pingos espaçados de uma fonte a redescobrir com dificuldade a sua função. Miro os pés desnudos, as unhas pintadas na perfeição de um grená que vai bem com as minhas roupas de mulher grisalha. Vai bem com o verão, também, acrescenta-lhe cor.
Dizem que é bom retrospectivar, ver o filme para trás, fazer balanços. Não consigo nada disso, as imagens sobrepõem-se, quem chegou e quem partiu, quem ficou, o que se perdeu e o eventual ganho. As cabeças louras das crianças a ensolararem-me os dias, o rodopio das viagens, mundos e mundos, choros e a ebulição das grandes cidades, o que se ganhou e o que se perdeu, o que ficou para trás… A tua presença discreta, mulher-mãe, a tua inabalável fortaleza, tantos dias e horas e celebrações, os momentos de aperto, as palavras a ficarem para trás…
Houve que ganhar a vida e… se a vida se  perdeu?
Tudo revolteia, dança surrealista de contrários, não há norte para onde me vire, viajo enfim pelo caos da minha vida, pelo imperativo do dever que norteou a minha vida e declaro-me cansada. Cansada quer dizer esgotada. E esgotada quer dizer que estamos num beco sem saída, a minha vida e eu. Mas não há becos sem saída, ou haverá?
Olho outra vez os meus pés que se mantiveram jovens, apesar da idade, as mãos onde ela é mais evidente. O tempo está a ser contado ao contrário, à Inescapável Companheira já se lhe adivinham os contornos, será que me consigo cumprir…

É verdade que tentei em paralelo, mas o sonho era demasiado grande para o      cenário, os personagens insuficientes, ninguém pode viver ou cumprir o que só tu sabes.

Não há balanço possível. Aguenta-te, mulher, na corda bamba das tuas circunstâncias, vive o melhor que souberes a desnorteada hora da reflexão, acarinha as palavras a jorrar dos teus poros como água sagrada, escrutiniza os dias com a memória que te consome, derrama, mulher, derrama na folha em branco os secretos impulsos tanto tempo adiados.
Anoiteceu, entretanto. Vejo estrelas, aos milhões, pelas janelas amplas, abertas dia e noite. A Lua é um mundo enorme, redondo, amarelado, ali a rolar para trás do monte.

Aperta-me nos teus braços, se puderes, aonde quer que estejas. Não digas nada, deixa-me sentir apenas que entendes a minha loucura, que me consentes assim.

 Quadro: Francine van Hove

domingo, 2 de junho de 2013

DESABAFO SEXTA-FEIRA À NOITE



Por vezes as palavras ficam encerradas dentro de mim.
Quero abrir uma brecha, por pequena que seja, para que elas se esgueirem para fora deste espasmo e o alívio se instale.

Contudo, por vezes, fica tudo fechado. Boca, voz, a mão que escreve.
Um sufoco inimigo, lábios apertados, sono e depois uma indolência persistente.
Não motivação, não querer, não ter como.

A alma a dizer-me que, por ali, não.
 Quadro: MONTSERRAT GUDIOL