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domingo, 2 de junho de 2013

DESABAFO SEXTA-FEIRA À NOITE



Por vezes as palavras ficam encerradas dentro de mim.
Quero abrir uma brecha, por pequena que seja, para que elas se esgueirem para fora deste espasmo e o alívio se instale.

Contudo, por vezes, fica tudo fechado. Boca, voz, a mão que escreve.
Um sufoco inimigo, lábios apertados, sono e depois uma indolência persistente.
Não motivação, não querer, não ter como.

A alma a dizer-me que, por ali, não.
 Quadro: MONTSERRAT GUDIOL
 

sábado, 25 de maio de 2013

PALAVRA - BARCA DE RISCO


A palavra permite-me escrever sobre o meu não saber das coisas e da vida, da morte e dos improváveis, dos sonhos desconhecidos engendrados onde se não sabe, a palavra é a minha barca de risco, a esperança última de uma depuração que me convem para que me tente salvar.

Não quero morrer toldada de ilusões, nem permanecer na memória dos outros como se eu tivesse sido o meu veículo físico e o meu eu social. Esses terão sido apenas franjas, adornos de uma circunstância passageira, efémera. Quero que a palavra me escave, me penetre impediosamente como um aguilhão fomentador de lucidez e coragem  e me leve para além do que aparento ser. Nisso reside a minha talvez única possibilidade de auto-descoberta, aí vive a réstea de esperança de me confrontar com o que me habita sem que eu saiba. Sem que lhe conheça os contornos, a origem, o propósito.
Sei que me aguarda o inimaginável, sei que por entre  os leitos das flores que tanto amo serpenteiam sulcos áridos ressequidos por vivências da anti-vida. Suspeito que as fórmulas  para as abracadabras se hão-de  apresentar inesperadamente simples e óbvias, embora inalcançáveis por agora. Aí me levará a minha barca de risco, talvez mais longe, quem sabe…
Que ela me faça transitar pelos demónios da mente e os neutralize! Que dirija os meus impulsos, a descoberta dos núcleos recônditos aonde o mundo não se atreve a espreitar e lhes revele a face oculta, ao coroá-los na tangibilidade da palavra. Na palavra que há-de ser inevitavelmente feroz para abalar o estabelecido, a consciência levantada sobre si mesma, a falar de uma maior autenticidade e clareza na experiência.
Na união de saber a vida, ao sentir o que se vai sabendo.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

TORRE DE MARFIM


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Se é noite, noite é e não quero pensar. À janela da minha torre de marfim espreito a sinuosa probabilidade de me reinventar assim no breu, apesar da lua alta, do tom negro-esverdeado de tudo a perder de vista. Sinto uma omnipotência indecifrável em conexão com algo aqui dentro que não saberei nunca expressar.

Soam grilos, canta o silêncio inescrutável como um voo invisível, um sonho de que te não lembras apesar dos esforços. E as fragrâncias da noite, vagas e adocicadas, viajam entre mim e o infinito escuro para onde me quero projector. A mim ou a isto aqui dentro  que não parece encontrar porto onde se espraie, horizonte adequado.

Questão de escalas, talvez, diz-me o poema a querer erguer-se. Das janelas das torres de marfim isoladas em impossíveis descampados tecem-se, à noite, redes com fios de luar, estruturas prateadas de apoio a voos secretos que nos levem para além de nós mesmos. Posso construir uma corola mântrica, fragrante como a noite, aconchegar os meus sonhos, conhecidos e por conhecer, no coração da flor espacial e deixar-me ir como um pedaço de brisa, milagrosamente conduzida pelo equilíbrio das forças e anti-forças universais.
Movimento elíptico ascendente perfumado silencioso invisível. Inexistente.
Continuo à janela da torre de marfim, ancorada numa subjectividade inexpressável, bate bate coração que a noite é longa e nada se revela. Chamam-me da base vozes sem sentido, em ziguezague pelo ar acima, pedaços de tesoura enferrujada, contrárias ao poema que se formava, ao génio na lâmpada de Aladino que já se esfuma…



Vem, é tarde, tens de dormir. Amanhã há trabalho.



Nada mais desliza em mim, abortado o momento glorioso que o não chegou a ser.

Lá fora, nem os grilos soam agora. Parece-me.

Também o luar se foi. Parece-me.

Cai incessante uma chuva miudinha.
Sem som.

Quadro: Gertrude Abercrombie, "Torre de Marfim"

segunda-feira, 20 de maio de 2013

JULGAMENTO


Ganhei horror ao julgamento. Sei-o agora, eu que já julguei tanto, sentada numa auto-atribuída auréola de santidade e de certezas finais, limpas, um mundo de crenças justas e definitivas e de arrogante capacidade de avaliação dos cenários da vida, em especial os dos outros. Chegava a comover-me a minha personita virtuosa, tão rigidamente segura de si e do seu poder para arrumar em prateleiras adequadas caminhos tortuosos, feitos épicos, faltas de moralidade e até conceitos filosóficos e seguir em frente.

Ganhei, entretanto, horror ao julgamento. Agoniam-me os discursos redutores, as análises críticas do comportamento alheio e, pior ainda, a sua condenação. Entrou-me uma espécie de alergia anímica aos ataques brutais seja do que ou de quem for, pois o insondável das causas por detrás de tudo quanto existe baixou sobre mim como um grande silêncio purificador e selou-me os lábios com um beijo de humildade e compaixão.
Os juízos de valor estabelecem sempre relações entre conceitos conduzindo depois a uma afirmação. E é do inquestionável desses conceitos, mais ainda da afirmação definitiva a que os mesmos conduzem, que a vida me foi ensinando a desconfiar.

Não falta hoje informação. Muita, abundante, em geral deturpada ou voluntariamente manipulada para alimentar conflitos, separatividade e nos envolver na confusa penumbra da inquietação. Acima de tudo, parece que é preciso ser contra ou a favor. Condenar ou apoiar, como se a vida estivesse dividida em campos estanques de claro e de escuro e tivéssemos de os classificar, urgentemente.

Ganhei horror às palavras condenatórias, aprendi a recorrer ao silenciamento dos ímpetos abruptos dentro de mim.
Quero escutar a voz mais funda, a que se nutre na tentativa de compreender a complexidade da existência humana, tão experimental ainda.

Sabemos muito pouco e quando os egos excitados cavalgam sem prudência pelos campos das mal fundamentadas certezas, dos ódios ou da adoração mitificada, acabam por se abrir sob os nossos pés os grandes alçapões do erro.

Ao contrário do que se crê, a certeza racional acaba por ser escorregadia. Há que ancorá-la no sentir e ter cuidado, um infinito cuidado com a palavra que nos sai da boca.

sábado, 18 de maio de 2013


ASSIM SE SENTIA

Quiz chegar antes da hora mas não consegui. Já soavam as vozes do coro religioso, a figura apagada de um padre idoso e frágil aproximava-se do altar, a igreja cheia de gente – pareceu-me que todos tinham voz vibrante e sabiam de cor as preces, as respostas ao padre na ponta da língua (Corações ao alto, Ele está no meio de nós, Ele é o nosso Salvador) - tudo em andamento quando encontrei um lugar na coxia de uma das primeiras filas e os meus olhos a buscaram. Só por ela tinha vindo, pela dor lancinante que lhe adivinhava na alma…o amado irmão, ainda no vigor da vida, deixara este mundo havia apenas uma semana.
Busquei-a e encontrei-a na figurinha magra e trémula, de joelhos nos degraus de pedra do altar, um véu negro e amplo sobre os cabelos grisalhos.
Havia algo de dramático e pungente no recorte da mulher de negro, a mulher que respirava luto por todos os poros e se distanciara de tudo e de todos, ajoelhada nos degraus de pedra enquanto o ritual prosseguia o seu curso.
A missa era por várias almas, mas parecia ter sido encomendada só para ela que chorava silenciosamente, destituída em definitivo, assim se sentia, da companhia daquela alma afim, desse amor tão grande, assim se sentia.
As vozes no templo cantavam seguras, piedosas talvez, recitavam seguras, mecânicas talvez, a conversa com Deus, ora em pé ora sentados e eu de olhos e coração pregados na figura de negro de costas para todos, ajoelhada na pedra, distanciada, o seu ser trémulo a marcar posição em relação ao mundo. Doía demais no interior esfrangalhado, pois aquilo vinha de dentro, das profundezas, assim se sentia.

 A ponto de desmaiar, trouxeram-na em braços para a primeira fila, para que se sentasse um pouco, deram-lhe água com açúcar, para que se reanimasse. De família, nem sinal.
Chegara o momento para que eu viera, amparei-a nos meus braços, passei-lhe intuitivamente o conforto do meu coração de mulher aberto à sua dor, as almas encostadas uma à outra, irmãs e cúmplices, apesar do escasso convívio na vida real. Assim se sentia.
Agradecida, um pouco mais consolada, segurava a minha mão no seu coração aos soluços, triste triste como só os que amam de verdade podem ficar quando lhes é retirada a companhia dos seus queridos. Tinham vivido juntos toda a vida, à excepção de um pequeno período em que ele estivera casado, ele era bom tão bom e morrera nos seus braços. Dizia-me tudo isto a voz fraquinha, quase inaudível, diziam-mo os olhos baços, quase mortos, as lágrimas que teimavam em deslizar silenciosas na pele, quase transparente, do rosto desfeito encostado no meu ombro. Numa só mulher eu vi incorporadas por um segundo todas as funções – a viúva, a mãe, a irmã e a filha enlutadas – um amor maior que o mundo, assim se sentia.

Afinal havia mais família. Tinham ficado ao fundo da igreja – os filhos dela, a mãe. Todos enlutados, pela certa. Mas a milhas de distância dela, que tinha verdadeiramente amado.
Assim se sentia.

Quadros: Montserrat Gudiol

sexta-feira, 26 de abril de 2013

REVISITANDO COLEGA DA ESCOLA PRIMÁRIA

Baixinha, rosto doce, feições regulares e aqueles olhos amendoados de um verde raro, como que temperado de matéria apaziguante. Recordo-te como eras então, Regina. Minha companheira de turma da primeira à quarta classe, sempre juntas, partilhávamos o recreio, o lanche, as confidências, chamavam-nos a Pequena e a Grande, pelo contraste das silhuetas.
(Bom sentir-te aqui na carteira, ao meu lado. A intimidade dos papelinhos trocados, à revelia do olhar atento da professora, com as últimas lá de casa, os apertos de coração perante as injustiças dos adultos, o meu poema de ontem à noite que te adoça ainda mais o olhar. "Não descanso enquanto não publicares, este é uma obra de arte, sente-se mesmo." Ajudo-te nas redacções, apaziguas-me neste fogo que sempre me leva a ferver em pouca água. Fala, rapariga, vamos apanhar azedas. Sabemos tudo uma da outra e sonhamos com o vasto mundo que de certeza existe mais além das fronteiras salazarianas. Um dia, havemos de fazer e de acontecer. Mudar o mundo, publicar livros, salvar os pecadores, viajar e ficar em hotéis. Paris, Londres, Nova Iorque.
Juntas, exame de admissão ao liceu e à escola técnica, de autocarro sozinhas pela primeira vez. "Vamos sempre ficar juntas, até ao fim da vida, fazer coisas fantásticas." Melhor que todos, a Regina. Que a mãe e o pai, que os manos, que toda a gente. Íntima, perto deste meu agreste coração selvagem, ela percebe, acalma, ajuda a recompor a atitude, espelha com entusiasmo a incipiente poesia que produzo, às carradas.)
O exame de admissão separou-nos como uma foice cruel. Não entrou para o liceu, era uma aluna apenas mediana. Apanhávamos depois o mesmo autocarro, mas tínhamos de sair em paragens diferentes. Os caminhos foram-se apartando, até ao quase esquecimento.
Quase, mas não totalmente. Voltas sempre, dentro de mim nas horas mais turbulentas, nos grandes impasses, se eu tivesse uma Regina para me amparar… Se eu pudesse contar com a sua tranquila atenção ao fogo do meu discurso, o olhar de fim de tarde estival a amornar os meus excessos…
Um dia vejo-te, depois do reencontro no facebook. Almoço na Rua Braamcamp, perto do escritório. Tão igual a ti mesma, pequenina e regular, umas poucas rugas, quase nada, mas tão longe de ti em mim. Palavras que não saem, em nenhuma de nós. O teu olhar já não é tranquilizante, vejo-o parado, sem expressão. Contenho-me. (Não mostres o desapontamento). A custo, lá vêm as tretas do costume, casamentos, divórcios, as gracinhas dos filhos, o custo da vida. Não aguento, não é possível! 
Disparo, à queima-roupa. "Regina, que te aconteceu, que é feito de ti, irmã da minha alma?"
Por um segundo, o lampejo antigo, o da imagem guardada desde a infância. Mas não. A voz, num suspiro, mal se ouve.
"Desisti."

terça-feira, 23 de abril de 2013


CARTA AO MEU PRIMEIRO BRINQUEDO

Deves ter existido, com certeza. A cada criança chega sempre esse primeiro objecto, espécie de jangada de onde se lança à descoberta de si a e do que a rodeia. Pode ser qualquer coisa, uma roca, um peluche, uma boneca. Carrinho mecânico, peças de encaixar ou um alegre tambor. Qualquer coisa que pela cor, forma, som, estimule a imaginação do pequeno ser recém-chegado à densidade povoada de mil formas e de outros tantos mistérios.
Exististe, não tenho dúvidas. Um dia, o veludo dos meus olhos inocentes encontrou-te e em ti ficou preso, fascinado, curioso. As mãos pequeninas agarraram-te uma e outra vez, sempre mais sôfregas de ti e dos teus segredos, estou certa que te cheirei e te mordisquei as pontas, que me meti contigo na cama e que chorei desalmadamente quando um dia ninguém lá em casa te conseguiu encontrar.
O estranho é que não me lembro. Por mais que vasculhe a memória, nada encontro. Nem o rasto de uma linha especial, da impressionante cor, dos por certo inesquecíveis contornos. Nada, nada retive, a memória trai-me, engana-me. Prega-me a partida da ausência, um vazio oco a sobrepor-se àquilo que seguramente vivi contigo, nos tenros dias da primeira infância.
Decido perguntar à mãe, velhinha e cansada, se se lembra de ti, o meu primeiro brinquedo. Como era, quem mo deu, o que é que eu fazia com ele. Fica pensativa, a reacção lenta, os olhos baços quase invisuais a revirarem sei lá que páginas das suas lembranças de quando era a mulher todo-poderosa que à vida me trouxe.
« O teu primeiro brinquedo...? Não sei se me lembro...Mas para que é que queres saber isso, agora?» – esboça-se uma espécie de pré-sorriso nos lábios finos, descolorados. Balbucio qualquer coisa, preciso que ela fale.
«Olha, tiveste muitos. Foste a primeira, todos te cobríamos de prendas, uma loucura. Mas se bem me lembro, tu nunca foste muito de brinquedos. Não ligavas. Eras era muito conversadora. Desde pequenina que falavas muito bem, repetias com gosto as palavras que ouvias e que mais te agradavam. Mal pudeste,
agarraste-te à escrita. Tinhas uma lousa, daquelas antigas que as crianças usavam antigamente nas escolas e nela escrevinhavas todo o dia.»
Ah, encontrei-te, encontrei-te meu brinquedo antigo! De facto, nunca nos separámos, tens sido o meu grande amor desde que provei a musical força criativa que te habita. Obrigado, palavra, meu primeiro e eterno brinquedo!