Número total de visualizações de página

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

NA PERIFERIA DO MUNDO


A forma que me reclama vem do fundo do olhar de um sagrado em ligação estreita com o conhecimento imoderado da vida em todas as suas expressões, visíveis e invisíveis.  Para dela mais me acercar, essencial que me continue a situar na periferia de um mundo enlouquecido, desligada de normas aberrantes, pois o meu caminho faz-se de modo transgressório, poeticamente montada na sabedoria do sonho cujo canto embate na ordem vigente.

Vestida de uma eterna vigilância, suspeito de tudo o
que não  engatar com a sabedoria das entranhas pois o que não faz sentido prende-se em geral com a falsificação da realidade. A unidade para mim é visceral e o meu contrato é com a Esperança, companheira constante num trilho de contornos inquietos mas desbravadores.
Aspiro à consonância com o ritmo cósmico, desligada das armadilhas do quotidiano, imersa nos fluxos da Supravida, apanhadora de sonhos livres,  de voos íntimos e audazes, insubmissa ante a autoridade terrena, fabricada com motivos ulteriores..

Prossegue, contudo, o consenso incontornável com os instrumentos da sobrevivência, navego numa espécie de jangada em equilíbrio precário entre as margens do que já foi e do que está para ser.
“Venha a nós o Vosso reino, assim na Terra como no Céu”.



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

FAZ-SE CAMINHO AO ANDAR


Aonde toco, dói. Apesar do passarinho insistente a cantar na grade barriguda da minha janela virada para o monte antigo, do conforto infinito dos momentos roubados ao dever para esta intimidade anímica. Apesar de saber como, porquê, para onde se vai, que não há alternativas  ao paramétrico páteo da vida e que só dentro dos seus limites tudo se passa, mesmo assim atrevo-me.
O sonho é o trampolim para o impossível e nele ensaio os passos de uma dança ainda não inventada, a parte determinante do todo, como quem busca casa a partir de um quadro que ama e cujas dimensões exigem uma grandeza de espaço inacessível à bolsa magra. Ainda assim, seguindo princípios inacessíveis à compreensão humana, estas coisas acontecem nutridas por fonte desconhecida que gostamos de imaginar altamente colocada na hierarquia divina.

Aonde toco quase sangra, de tanto doer. A exaustão tende a desligar-nos do nosso centro, mas um caminho só vale se o conseguirmos percorrer até ao fim, segreda a capricorniana em mim inspirada no mágico Don Juan e num esforço renovado agarro-me às palavras, ao mel infinito das palavras que qualquer coisa podem esboçar, construir num ápice.
Caminhante do trilho espesso, sigo por pedras angulosas aos tropeções no coração da noite, prumo interior em impulso equilibrista, sóis de outras  paragens a sustentarem-me o passo fatigado, canções noctívagas renascidas de cada aperto, numa talvez patética heroicidade filha das circunstâncias.

Para onde sigo só pode haver mais de mim, se os passar , aos portais de abertura baixa, por onde a vida me conduz.
Sustentável, terá de ser, a dureza de prosseguir.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012


RECORDANDO ANITA

Para a Anita, minha Mãe já partida
e para a Ana Cortiñas Payeras, para cuja dor o meu coração  de mulher-irmã se abre


Correspondias ao de leve com os lábios finos pregados, apenas entreabertos no centro por onde passava o fino sopro da vida que te restava. Correspondias assim aos meus beijos, aos carinhos desvelados das minha mãos feitas mãos de mãe para a Mãe que se apagava, serena e dorida, espasmos de olvido a ensombrarem as últimas horas, como se nada daquilo fizesse sentido, algo atraiçoava o que sempre souberas, como podia ser?

Tudo eram susurros à volta do quarto imaculadamente conservado, as tuas flores, as fragrâncias que tu amavas, os olhos mortiços seguiam-me lentamente e aos meus sorrisos – todos para ti porque insistia ainda  em injectar algo desta minha vitalidade no que de ti restava –não me querias decepcionar  mas sabias tão bem a inutilidade do esforço, sabias mas esquecias-te também – a abóboda alentejana apresentava-se alheia às tuas lembranças, onde estavas, que quadros eram aqueles, como tinhas ido ali parar, quando regressarias ao lar amado.
E eras outro ser, ninguém já saberia quem tu eras, quem tu foras, e enquanto o choro interno rasgava sulcos de dor dentro de mim, mudava-te a fralda entre beijos, bebia as lágrimas da tua vergonha  e aconchegava-te, dizia meu amor, minha querida, descansa agora, estou contigo, estou por aqui, não temas nada.
Não sei dizer como era, o que me assaltava quando te limpava cuidadosamente a vagina donde o meu corpo havia emergido um dia. Sentia-me de joelhos dentro de mim, eras de novo por momentos a rapariga de pernas bem feitas que me carregara no seu ventre com orgulho desusado e me cuidara amorosamente pela vida fora. Eras também a mulher velha, sapiente, a aceitar com dignidade e muita dor as voltas velhacas da vida, as  mãos enrugadas artríticas que os meus beijos acarinhavam mais que nunca.

Depois, seguiu-se a rápida curva  descendente. Diziam os boletins medicos que já nada valia a pena, que estava iminente. Oxigénio, morfina, e dentro cá dentro ainda passeavas comigo pelos cafés, ainda eras a cúmplice da minha vida, cuidávamos das crianças, faziamos bolos, as festas, as viagens, tratávamos das plantas, ajudávamo-nos uma à outra, sem censuras nem recriminações, amparo mútuo nas curvas apertadas. Vi a respiração encurtar-se até que estancou para sempre, as mãos já roxas ainda nas minhas, o momento sem sentido das frias condolências do medico a dizer que sim, que era verdade, que a Anita já não estava, já tinha partido, que o papel do hospital tinha findado  e que agora era tudo com a funerária.

Dentro de mim ergueram-se coros enlouquecidos a cantar a Mãe, deram voz à minha dor pela dor que ela sofrera, não tanto por ter partido.
Com o passar dos meses renovam-se as lágrimas, tenho tido que lidar com o que a Anita deixou, acima de tudo com a implacável deterioração física que o tempo imprime à invencibilidade interna de uma Mãe.
Nesse processo, cada um está dolorosamente só.

domingo, 9 de dezembro de 2012

-->
MIM EM MIM
(ao encontro das profundezas)


Como seria se nada disto - deveres, trabalho compras  falta de horas para dormir, gente pesada a arrastar insonscientemente o peso do mundo nos ombros arqueados sugando alívio à passagem – me entravasse o passo e eu pudesse movimentar-me solitária e sem interrupções pela costa fina da noite misteriosa, livre de amarras, ao encontro das vozes que me habitam e de um inquietante imaginário que, de tanto aguardar, ameaça sublevação?


Não dá sequer para fantasiar já que me falta o tempo para tal, mas neste momento clandestino arrancado à punitiva obrigatoriedade dos dias é-me permitido espraiar-me por segundos  na espuma cintilante de um passageiro  alívio e escapar-me para fora da gaiola segura da vida oficial. Ao teu encontro, sigo, mulher da alma vibrante e dos tenros núcleos, mulher-criança acocorada por detrás das máscaras da persona, todas elas necessárias, parece-me, todas tão dispensáveis, talvez. Sinto-a uma alma antiga, recorrente no esforço de se fazer ouvir, de tornar credível um canto deslembrado oriundo de um porto inexistente para os detectores tecnológicos. A fortaleza desconhecida, aplicável sem esforço noutras frequências, sofre aqui os testes da dualidade, reprime-se, empurrada sem dó para o depósito da reserva pessoal a utilizar quando sine qua non.
Quando te entrevejo. Mulher, não te quero mais largar. È como se fora de ti não existisse mais ar, nem luz ou sentido para a vida. De ti depende a pulsão saudável do tempo a que alguns chamam a verdade, em ti se prendem todos os meus encantamentos e a única grande esperança de eternidade.
Seduz-me, agarra-me, preenche os espaços intersticiais do meu corpo cansado com o mel dos teus olhos e esse sussurro que cheira a plantas frescas, a terra revolta, mar salgado, aves nocturnas, beleza feita tudo, sem fim, sem fim…

Cheguei à hora final.
De ti, e só de ti, dependerá o amanhã.
Fiat voluntas mea, sed maxime fiat voluntas tua.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012



BOND – INSTRUMENTO DA ESCRAVIDÃO

Se é difícil falar de certas coisas a um determinado nível, mais problemático se torna ainda tocar pontos de consciência que muitos ainda não alcançaram.

Fui ver o Skyfall. Grande êxito de bilheteira, aguardado com expectativa pelo mundo dos adoradores do 007, facturou logo no primeiro fim de semana de exibição 70 milhões de libras. Isto só no Reino Unido. Espera-se que ultrapasse rapidamente o mais bem sucedido filme da série até hoje, Casino Royale.
Sam Mendes, o realizador, assegurou-se da utilização de todos os ingredients que vendem um produto desta ordem: o talento de grandes actores, acção, fantasia, efeitos especiais espectaculares, armas, morte, violência, machismo, aparatosas perseguições de carros, dureza, agressividade, velocidade, mulheres que correspondem aos estereótipos actuais – magrinhas como um alfinete – todas mais ou menos submetidas ao absurdo herói Bond. Nem M, a patroa do MI6 escapa à regra pois, sob a mascara da dureza, encobre um fraquinho pelo agente secreto.
E Sam Mendes dispôs, é claro, de um orçamento ultra-generoso para a sua mediatica obra (200 milhões de dólares Americanos). Apesar de cortado, imagine-se.

Vi o filme como, hoje em dia, tento fazer tudo na vida.
Em estado de observação das mensagens passadas e da repercussão que as mesmas possam ter nas audiências, em especial nas camadas mais jovens e moldáveis.
As conclusões são inquietantes.
Para aqueles que disso ainda não tenham consciência, sera bom lembrar que tudo o que nos é oferecido pelos media (imprensa, cinema, televisão, internet) constitui em essência um arsenal de instrumentos de (de)formação do carácter pois nele imprimem poderosos padrões comportamentais e exemplos facilmente integráveis pelos menos avisados. Ora Skyfall, tal como o nome indica, é um exercício de abatimento. Abatem-se criaturas humanas, abatem-se carros, casas, abatem-se a ordem e a segurança públicas. Tudo a uma velocidade ultra-sónica, num guião pouco transcendente e focado na dualidade – o mundo divide-se entre os bons e os maus – por onde gravitam o herói Bond e o indispensável vilão, sob o olhar penetrante e inquieto de M. Rudeza, traição, secretismo e ódio a rodos, indiferença pelo valor da vida humana e ocasionais pinceladas de cariz sexual acompanham a rota de um Bond de cabelo à escovinha - mais com ar de agente do KGB do que do MI6 – sempre a escapar miraculosamente e sem ninguém perceber como das situações-limite em que se vai envolvendo. Final brutal e sangrento, com M a deixar-nos para sempre e um Bond a emergir ileso para a promessa de que voltará.
 
Nenhuma criação deve ser vista como separada do seu criador. Ian Fleming, o escritor que deu vida ao famoso James Bond, foi um homem sofrido, com uma juventude conturbada e muito álcool e cigarros. Morreu cedo, aos 56 anos, de um ataque de coração. Durante a Guerra, serviu no Intelligent Service da Marinha Britânica e essa experiência, à mistura com a sua formação de jornalista foram as plataformas donde projectou uma espécie de alter ego idealizado e invencível, James Bond - 007, Ordem para Matar! Fleming pintou Bond com as cores que secretamente desejaria ter possuído, ou seja, foi da Sombra deste autor que surgiu o agente secreto, enquanto sofria cada vez mais na sua casa da Jamaica ao tentar dar vida a cada novo livro. O que se  apresenta como traço paradoxal – ao criar dolorosamente o inabatível Bond o autor auto-destrói-se – é apenas o resultado de gerar sucesso radicado em padrões de morte e  destruição.

Preocupam-me muitas coisas no mundo de hoje. Acima de tudo, a incapacidade da grande maioria dos humanos terrestres para terem a percepção crítica do que lhes é impingido e o questionamento dos efeitos de produtos como este na continuidade da escravidão humana.  

terça-feira, 30 de outubro de 2012

-->
REFLEXÃO NO DIA QUE PASSA

Hesito por vezes em dizer certas coisas e abrir-me com sinceridade, pois esta é frequentemente interpretada como soberba ou sentido de superioridade sobre os outros.

Nada disso, o que digo é o que vejo, o que me fere a vista, os sentidos e está directamente conectado com este  impulso que sempre experimentei para nivelar por cima e buscar a excelência em todas as coisas na vida.
A humanidade terrestre está a braços com um dos maiores desafios de sempre, pelas mudanças radicais e aceleradas que se verificam a todos os níveis. A impermanência das conclusões a que se vai chegando nos diferentes domínios, o carácter passageiro e a óbvia transitoriedade de tudo, desde a casa aos afectos, da profissão aos sonhos, originam uma espécie de inquietude, por vezes indiferença, uma falta de compromisso consequente com os processos vitais para o nosso cumprimento pessoal.
Então, que fazer? Aqui estou sentada ao meu Mac donde sai um esplêndido Wagner e o incomparável Prelúdio a Tristão e Isolda, aqui me encontro rodeada de smartphones, ipad e uma pilha de trabalho infindável. O corpo pede-me descanso mas estou em Londres, a cidade amada, e os Pré-Rafaelitas esperam-me no Tate Britain. Tenho de ir, quero ir, a beleza extraordinária daquelas obras faz-me subir a energia uma oitava e é nessa plataforma que mais desfruto da vida. A minha escolha apresenta-se  a um tempo sábia e errada, pois sirvo a alma em detrimento do corpo, mas como os alívios e as dores da alma se reflectem sempre nele, arrisco. É este actualmente o paradoxo das nossas opções – não há permissão para parar e gozar de um descanso prolongado ou fixação seja no que for. À excepção da escuta interna que nos vai obrigando a fazer caminho ao andar, e nos impulsiona nas direcções mais inesperadas, tudo o resto nos vai escapando debaixo dos olhos, dos pés e de uma certa ideia de vida que não mais é. O Universo está com pressa e quem não estiver aberto aos seus desafios actuais, vai perder o comboio.
Aos desistentes, aos apáticos, aos entorpecidos pelas distracções (leia-se televisão e facebook sem critério, sexo sem amor, álcool e outras drogas, etc) espera-os a não-vida, ou seja, a morte em vida que é o pior dos destinos. Aos que se propõem seguir com verdade o fluir da vida, nada está garantido. Mas, um certo frémito da alma,  uma emoção nova e comovida ante os desafios e a tentativa de resposta do ser ao que a vida parece indicar como caminho, chegam-me por ora para me sustentar no processo.

domingo, 14 de outubro de 2012




REGRESSO AO CENTRO

Torna-te naquilo que és.
PINDARO

Oiço as vozes, as que atacam e as que se defendem, as que clamam que tudo é Bem e positivo e luminoso e as que apontam dedos acusatórios entre si, as que pedem justiça para as suas causas e ideais que a sociedade atira indiferentemente para segundo plano, para o esquecimento mesmo…
Vejo, como sombras vagas, outras mulheres debatendo-se, no seio do sofrimento, pela legitimidade da sua voz que há-de ser a certa, a melhor, a mais credível…
Sinto as marcas de milénios de dor e descentramento desse poder intrínseco e mágico que o patriarcado abafou, castigou, reprimiu, usurpou e a subreptícia e encoberta caminhada da fêmea, sobrevivente a qualquer custo, alheada, confundida, jogada hábilmente contra a outra fêmea, vítima de si mesma antes de qualquer outra coisa.
Como é que isto se passou, mulheres da Terra? Como é possível que continuemos a degladiarnos, a trocar palavras frouxas de conteúdo e sentido duvidoso, iradas umas contra as outras, ressentidas, dominadas por um falso sentido de superioridade, desleais em relação  ao que mais importa, o regresso a si mesmas?
Sou uma mulher como todas vós. Em mim uiva a loba, Lillith reclama soberania, a Mãe divina abre os meus braços amorosos para todas as crianças do mundo e o corpo sensível e maduro acusa estremecente o registo do passo do tempo. Tentei mimetizar Eva sem grande sucesso e gosto de me sentir bruxa (sem nada entender de bruxarias). Espero ter aprendido com as minhas quedas e dores que o importante é respeitar o espírito de quem, debaixo dos nossos olhos, desafia a nossa paciência com a traição de si mesma…

Busco quase em desespero tornar-me naquilo que verdadeiramente sou, a única coisa que importa afinal. Talvez tenha de morrer para o que tenho sido, desfazer-me de todos os simulacros, de todas as manipulações até que a rosa da essência se revele, como um amanhecer glorioso.
Por ora, a caminhada ainda é incerta. Quero tanto amar-vos, Mulheres da Terra, como a este centro tenro dentro de mim, manter-vos em mim num abraço eterno de solidariedade, justiça e bem querer, queria tanto que abandonassem os caminhos turvos e duvidosos de um passado obscuro para o nosso género e para a humanidade em geral, não mais permeáveis à intriga fácil, ao julgamento gratuito e à deslealdade. Nada disso é característico do ser feminino completo, de consciência expandida, o coração compadecido e generoso ante o sofrimento alheio.

Tenho dito, irmãs.

Quadro: "As Xamãs", Lena Gal