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domingo, 30 de setembro de 2012


A SOMBRA E O SÍMBOLO

“…cada coisa neste mundo não é porventura senão a sombra e o símbolo de uma coisa.”
FERNANDO PESSOA


O simbolismo de factos, objectos, padrões repetitivos, oportunidades e desventuras na vida das pessoas pode ser um dos melhores indicadores de quem se é e para onde se vai. Para tal, é preciso, claro, saber ler o caracter simbólico de tudo, essa “sombra de uma coisa” a que Pessoa alude.
Olho em meu redor e sinto-me  (umas vezes mais outras menos) naquilo que criei, nos laços desenvolvidos, nos sonhos ainda sustentados malgré tout.

Ah, as invisíveis paredes  dos impedimentos a imprimir desvios obrigatórios no caminho que se idealizara outro, ah os inesperados milagres, os abra cadabra para o maravilhoso que só acontecem, diz-se, aos que “nascem com uma estrela na testa”, ah as forças de dentro e as de fora mescladas num todo inextricável a que não estamos suficientemente  atentos e que acaba por nos sufocar diariamente em angústias e adiamentos da nossa desejável auto-revelação.
Aqui estou, sentada face ao meu potencial, algo consciente de recursos desconhecidos  e não utilizados, a remoer esta angustiazinha a que quero dar nome, sem o conseguir. Onde começa e acaba o meu poder de decidir? O que foi que não fiz que me cabia fazer no momento que não detectei e que era a chave para outras vias mais próximas do centro tenro onde dança a essência do que me foi destinado?

Que forças são estas que me deixam entrever o rosto do sonho, mas logo erguem tabiques cerrados ao meu passo, que espalham luas azuis num céu inalcançado, no gesto que se não completa, na palavra fecunda, escoante de seivas e interioridades várias mas fugidia, esvoaçante nos éteres sem que me deixem assentá-la no papel?
Sem que me deixem…O que é que me não deixa,, afinal,? O que é que cerra cruelmente as janelas para o sol que a minha alma busca, persistente entre convulsões e ventos desacertados? Quem me envia os símbolos da minha inépcia ou planta flores de esperança nos meus dias pendulares entre o passo atrás e o avanço encorajante?

Habituo-me cada vez mais a olhar outra e outra vez as sombras dançantes  na minha jornada, torna-se crucial  tentar extrair da sombra que passa o símbolo do que ela me quer apontar. E às vezes parece quase lá chego, revelação iminente, véu que se levanta enfim. Mas o jogo vai ainda na infância, tem que crescer a expensas minhas.

Que a sombra não passe sem ser vista, que o jogo não seja em vão, que a roda gire  e o padrão actuante entre vívido na minha consciência.  Tudo a quanto aspiro.


domingo, 9 de setembro de 2012


ANNA KARENINA
- a actualidade do romance de Tosltoi

Ter mergulhado de novo no romance de Tolstoi pela mão de Joe Wright, para além de me ter dado acesso a uma acabadíssima obra de arte, levou-me de novo à habitual reflexão sobre o desastre brutal que mudanças radicais de cariz sentimental na vida já estrututrada das pessoas vem a causar em geral. Se a resposta adequada (sob a forma da mudança necessária) ao sentimento avassalador do Amor se apresenta completamente legítima, já a sua realização efectiva se reveste de complicações inesperadas que, ao afectarem  entre outros aspectos o corpo emocional dos seres envolvidos, pode levar a grandes desastres pessoais.
Sendo os impulsos do Amor genuino incontornáveis, para além do corajoso mas desastrado caminho escolhido por Anna Karenina,  resta a quem os experimenta optar por uma das vias seguintes: ou bem que se decide a abafar no fundo de si mesmo o sentimento em questão (com consequências imprevisíveis, desde doenças inexplicáveis a “terapias de substituição” em geral desviantes do caminho próprio) ou opta por assumir para si mesmo esse sentimento e tenta encaixar na sua realidade a manifestação possível do mesmo.
Qualquer das opções implica sofrimento e desastre, em maior ou menor grau, pelo estado em que a humanidade ainda se encontra. Corpos emocionais altamente vulneráveis e o poderoso portal a que a vida sexual dá acesso, resultam em geral num turbilhão algo violento que acaba por afectar sériamente, de um modo ou doutro, as partes envolvidas.
As mulheres em especial, pela maternidade e ainda fraca autonomia económica (quando existe) são muito vulneráveis a estas mudanças e as primeiras vítimas dos seus actos. Por outro lado, a forma como até hoje estruturámos a vida social e familiar, levanta frequentemente questões do foro moral difíceis de resolver.

Por mais paradoxal que isso se apresente, lucidez e discernimento são imprescindíveis num processo abrasador como é o do Amor sentimental inesperado, irresistível e compensador em si mesmo como nada mais, muitas vezes surgido numa esquina da nossa vida quando compromissos profundos já haviam sido assumidos. Pois não será absurdo que a glória do Amor experimentado pelos personagens centrais de Tolstoi (em especial quando abrilhantada pela corajosa opção de Anna Karenina) se veja coroada de derrota e trevas pela decadência  e suicídio da heroína e consequente abandono involuntário dos seus dois filhos, pelo sofrimento e solidão do marido, um homem bom e justo que continua a amá-la para além da morte?

Sabe-se pouco, sofre-se muito. É tempo ainda de  aprendizagem…

A resposta para uma via alternativa às apresentadas, parece só poder vir do poder desconhecido do Espírito, numa entrega confiante ao fluir da Vida.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

CONTRA-CORRENTE

A obra e pensamento de Robert Skidelsky, Emeritus Professor de Economia Política na Universidade de Warwick, em Inglaterra, reveste-se hoje em dia de uma feição de urgência perante a continuada (e aparentemente insolucionável) crise sistémica que o mundo ocidental atravessa. Acaba de publicar, juntamente com seu filho Edward, a obra “How much is Enough”, a qual, a partir das teses desenvolvidas por Keynes nos anos trinta do século passado, põe com pertinência questões relacionadas com a insustentabilidade do sistema económico-financeiro mundial e a necessidade urgente de rever o formato das nossas vidas, trabalho, lazer e necessidades pessoais, numa tentativa de recapturar a “boa essência da vida” que povos drogados pelo consumismo inevitavelmente perderam.
O problema de maior dimensão parece ter origem no caminho que as coisas levaram desde a Revolução Industrial, em que começaram as grandes poupanças e investimento em equipamento, fase à qual se seguiu a era do consumismo e que, segundo as previsões de Keynes, deveria ter desembocado num período em que o lazer ocuparia grande parte das nossas vidas e o tempo médio de trabalho semanal seria de 15 horas. Keynes esteve certíssimo, excepto em relação a este último ponto. Faltou-lhe levar em conta a insaciabilidade colectiva do ser humano em relação ao material, se o seu esforço de progresso neste ultimo não for acompanhado do correspondente desenvolvimento espiritual. A maturidade a este nível pôe na devida perspectiva o ter e o ser, e impõe limites naturais a essa sede desenfreada de mais e mais que o ser humano ocidental desenvolveu como propósito último da vida no planeta.
Assim, no mundo desenvolvido confrontamo-nos nos dias de hoje com a pessoa algo neurótica, frequentemente estimulada e controlada por químicos ou sessões de terapia pagas a peso de ouro, facilmente irritável e com tendência para se aborrecer depressa das sucessivas aquisições materiais. O problema da material é que, se não for criado e acompanhado ao nível da nossa consciência pelo seu significado simbólico e apreciado como tal no espaço e no tempo, uma vez passada a novidade o glamour esmorece e entra no reino do conhecido e do hábito. Substituir, deitar fora, consumir, consumir sem freios, apenas pelo efémero prazer de nos vermos confirmados no nosso poder aquisitivo – o qual se tornou sem dúvida e erradamente um dos maiores símbolos de poder pessoal – consumir mais do que o outro, ter mais coisas e mais caras adquiriram  o ilusório significado de avanço na vida e de superioridade sobre o próximo.
Afortunadamente, o sistema não é sustentável, pois a economia ocidental só pôde continuar a crescer (o que significou consumir) com base nos empréstimos que nos levaram à situação actual. Os grandes dividendos que se obtiveram com a revolução industrial, o avanço tecnológico e a expansão do sector financeiro foram na sua maior parte arrebanhados pelos muito ricos e o rendimento das populações em geral, após um eufórico periodo de crescimento, acabou por estagnar ou decrescer consideravelmente.
Vive-se hoje na grande sombra da incerteza. Sucedem-se os escândalos, parece que já nada é nem autêntico nem seguro. Creio assim que não resta ao ser humano senão o caminho do questionamento do que é que temos feito com as nossas vidas e a quem é que temos dado poder para as controlar.  Torna-se pertinente virarmo-nos de novo para a interioridade onde habita o poder pessoal de cada um e lançar um olhar renovado sobre ideias, princípios, valores. Chegou a hora da contra-corrente!

Nota:
Recomendo a leitura de
-   “How much is Enough? The Love of Money and the Case for the Good Life” de Robert e Edward Skidelsky
-   Artigo no FT de 05/07/12 “Enough is Enough of the West’s Age of Consumption"

sexta-feira, 23 de março de 2012

DOS BURRONORMÓTICOS


Vejo-o todos os dias. Mas, nos dois últimos, apareceu-me repetidamente, esse rosto cinzento e inflexível da Norma, a interpor-se insolente entre mim e a dor fininha e angustiante que é companheira certa da minha alma nestes dias de assistência  à minha Mãe idosa e doente.
Ela está a terminar o periodo da totalmente gorada reabilitação  motora a que tem sido submetida num centro privado a que a sua Caixa lhe dá direito. Mês e meio de dias penosos, em que nós os filhos a visitámos diariamente e a vimos fenecer cada vez mais, a memória desaparecida, tremuras a instalarem-se, olhos apagados, as pálpebras inflamadas do choro frequente que a abala, uma exaustão maior que a vida. Oro para que domingo chegue depressa pois vamos levá-la para minha casa no campo, onde tudo está preparado com desvelo para a receber e tentar emprestar suavidade e paz combinadas com o maior amor do mundo e cuidados infinitos àquilo que serão pela certa os últimos tempos da sua residência na Terra.
Antes de partir, houve que levá-la de ambulância (os especialistas médicos não se deslocam a lado nenhum hoje em dia) à consulta de cardiologia e a exames da especialidade. Logo no primeiro dos dias, tive de me pegar com a enfermeira do Centro que insistia que a minha frágil Mãe tinha de ir sentada na cadeira de rodas (a “amarrar” à trepidante ambulância) e se opunha às minhas instruções de que ela fosse deitada na maca para maior conforto. Isto deu lugar a uma troca azeda de palavras, em que ela brandiu a sua “superioridade de profissional de saúde” e eu a minha por “ser alguém pensante, que questiona a norma e que muito ama a Mãe”. Venci eu mas deixei o fedor do ressentimento atrás de mim. Ontem foi a vez dos electro e ecocardiogramas, arrancados à pesada agenda do médico pela sua boa vontade e profissionalismo, dada a urgência da situação. Final do dia para melhor se poder concentrar, disse ele, já sem outros doentes à espera.
Nova ambulância, em que a filha mais nova acompanha sempre a Mãe, seguindo eu atrás no meu carro.  Espera, a Mãe a torcer-se incomodada, carinhos para a distrair, o medico atento tão contente porque a Mãe saiu por momentos do estado apático e esboçou ao de leve um sorriso para ele, “Como está o senhor?”.
Terminámos tarde, confirmada a sentença de que “com esta patologia a senhora pode falecer a qualquer momento, é preciso estarem preparados”.
A ambulância com a Mãe e a mana  regressou logo ao Centro, enquanto eu aguardava que me dactilografassem o relatório final para em seguida ir procurar o meu carro mal estacionado numa das travessas empinadas sobre o Tejo nas imediações do Hospital da Cuf. Acelerei de volta ao Centro, erguido num descampado ali para Chelas, lugar sem alma, repositório de todas as fealdades suburbanas.
Gelou-se-me a alma quando vi a figurinha da minha irmã, apenas recortada na noite mal iluminada, encostada ao lado de fora do portão do Centro, todas as barras baixadas, fechado, cerrado a sete chaves. “Puseram-me fora às 20h 55, porque já eram praticamente 21h 00 e o Centro fecha a essa hora.”
Protestou, protestou, uma mulher não podia ficar na rua, a irmã estava quase a chegar, só mais uns minutos. Nada demoveu a eficientemente normótica auxiliar de limpeza, naquele instante glorioso de poder total. Decisão confirmada pela recepcionista, sempre de rosto azedo e impróprio para quem atende num Centro de idosos. Fora, fora do Centro, fora do recinto, dos portôes, têm de ser fechadas todas as grades, a norma dita, a norma exige que às 21h00, nem mais um segundo e haja o que houver, são fechadas todas as entradas e saídas e ninguém mais entra ou sai. A mana deixou-se expulsar, esgotada do dia angustiante, assustada por estar sózinha a um portão naquele descampado, em tempos turbulentos como os que vivemos.
Pergunto-me: se os exames tivessem demorado um pouco mais e a ambulância tivesse regressado apenas às 21h01, a Mãe não teria podido entrar? Teria pernoitado na ambulância, sem a sua imprescindível medicação ? Teria falecido em consequência do mesmo? Dentro da ambulância?
Ah, já me esquecia! E se as normas da ambulância obrigassem a “despejar” a nossa Mãe ali mesmo, pois ninguém pode ficar dentro do veículo após a chegada ao seu destino anunciado?

Burros! Burronormóticos que nada sabem de si mesmos, muito menos dos outros, produtos aberrantes de uma sociedade decadente, a destruturar-se, enrolada no criminoso olvido de que é formada por pessoas feitas para sentir e pensar, para questionar e interpretar leis, normas, princípios e os instrumentos vários reguladores do folclore humano à face do planeta.
Assim vai a vida…

segunda-feira, 19 de março de 2012

PERSONALIDADE REDONDA


Dizia o amigo outro dia que as personalidades deveriam ser redondas e não enquinadas, como acontece na maioria dos casos. Só por essa superfície curvilinea e facilitadora do deslizar da energia,  pode  a pessoa humana  servir-se a si mesma e aos que a rodeiam de modo saudável e eficaz.
Ter uma personalidade redonda não significa ser “rodilha” dos outros. Muito pelo contrário: este é um sujeito com alta auto-estima, sem “macaquinhos no sótão” e que, por conseguinte, não tem quaisquer escrúpulos em deitar a mão ao trabalho que o contexto em que se insere lhe pede. Toda a tarefa é nobre se justificada pela necessidade  e realizada com empenho e brio. O segredo é o auto-apreço combinado com a dose certa de humildade pessoal e aquela alegria raramente presente na acção humana, alegria resultante de se estar a contribuir para a construção de uma conjuntura mais harmoniosa e justa.
Ando tão farta de poderzinhos pessoais, exercidos com prepotência, em que qualquer ser por maior que seja a sua ignorância e limitação de raio de acção efectiva, aproveita qualquer pretexto para subjugar o outro. Essa atitude barra os horizontes da expansão pessoal e cria ao outro dificuldades totalmente evitáveis .
Não se sujeitar a, não fazer determinada tarefa por não ter a ver com o “job description” ou, por outro lado,  realizar os trabalhos que nos cabem com enfado ou má-vontade ou utilizar o pequeno poder que a função que desempenha lhe confere para dificultar o caminho do outro, representa um débito na contabilidade pessoal da nossa auto-estima e da contribuição que damos à comunidade a que pertencemos. Aponta para uma falta de agilidade no carácter, cujas esquinas pontiagudas -correspondentes ao preconceito, às homofobias e xenofobias – todas elas radicadas no medo e por consequência na insegurança pessoal não nos permitem evoluir.
Eis um trabalho sobre a psique a que urge dar toda a prioridade.

quarta-feira, 7 de março de 2012

DIVIDIR PARA REINAR


Ando para aqui a pensar, com a moderação que me é própria, que mesmo os homens mais iluminados e avançados do nosso tempo acabam invariavelmente por aceitar o estatuto de "sacerdotisa" na mulher desde que ela esteja sob o olhar (controle) do homem (do masculino). Extraordinário, para não dizer...absurdo! Reportando-me ao Inefável e à sua expressão primeira reconhecida, onde e como se pode determinar essa "superioridade" de uma das partes sobre a outra? Se desse original “faça-se” resultaram dois polos complementares, guardadores diferenciados, mas a par, de um processo que resulta nos homens e mulheres que somos, como é que à mulher continua a ser atribuído uma espécie de cargo de “assistente de produção”,  de rainha sim, por vezes,  mas “consorte”, jamais por direito próprio?
Só a História - infelizmente tão mal contada - nos pode fornecer pistas para esta deturpação do valor dos papéis que acabam quase hierarquizados na percepção dos homens e das mulheres actuais. Englobo estas últimas porque a mulher do nosso tempo é um eco distorcido e confuso da mulher integral sonhada por Sofia, é um ser manco, dramaticamente cindido, cujo caminhar reflecte uma dolorosa ferida encarnacional. Ela não se consegue assumir na sua completude e, conquanto lute por direitos que sente serem seus e pareça avançar a esse nível,  a sua acção/percepção resulta contaminada porque uma parte fundamental de si ficou  aprisionada algures durante o processo de experimentação a que chamamos História.
Não me vou alargar sobre aquilo que de mais próximo conhecemos e que a tal questão deu origem: as invasões indo-europeias  há cinco mil anos e o domínio que o masculino bélico passou a exercer, em todos os sectores, nas sociedades. Existem fontes apropriadas para tal informação das quais eu destacaria o excelente “O Cálice e a Espada” de Riane Eisler. O que me parece relevante enfatizar aqui é que, se um dos polos brandiu a espada e rachou o cálice é porque este representava uma fonte de poder que lhe fazia, no mínimo, sombra. Dividir para reinar é uma máxima que chegou até hoje e se continua a reflectir não só na cisão da mulher mas em quase todas as práticas sociais, políticas, económicas e financeiras.
Faz-se caminho ao andar, adiantou o poeta sabiamente. Se, a bem da evolução,  a mulher de hoje quer avançar e ser percepcionada como o ser completo e poderoso que originalmente é, ela tem de se “apanhar” a si mesma na auto-percepção danosa que inconscientemente gera, percepção essa que continua a ser exercida pela humanidade em geral. A metade de mim não pode produzir o mesmo que as duas metades juntas. Uma só metade de mim permite ainda que a minha soberania total não se realize mas que, na ânsia de libertação, eu continui a “nadar em seco”. Nadar é seco é lutar por mais direitos  mas aceitar implicitamente que a mulher tem papéis e características que lhe são atribuídas pelo homem e, de forma inconsciente,  tentar emulá-lo. Muita da explicação pode ser encontrada nos arquétipos de Eva e Lillith, o primeiro como projecção da mulher submissa ao homem porque culpada dos males do mundo e o segundo dramaticamente adulterado para o estatuto de demónio. No modo como estes mitos fram passados, a consciência da mulher vê-se purgada da sua capacidade mágica de transformação que é a fonte do seu maior poder.
Não conhecemos o caminho de retorno a essa mulher integral, mas sabemos hoje que ele passa pelo resgate da metade perdida que o patriarcado guardou a sete chaves na sua sala de armas. Sem que esse processo se realize, a consciência da humanidade não se poderá elevar acima dos jogos nos quais ainda nos debatemos.
Compreender a natureza lúdica e experimental da marcha histórica, elevarmo-nos acima dos conceitos de vencedores e vencidos, algozes e vítimas , dos bons e dos maus é essencial, a meu ver, para que passos definitivos possam ser dados. Saber identificar o momento e desmontá-lo nas suas fraudes sem perder de vista o quadro maior requer sabedoria. Sobretudo a de compreender as características sempre temporárias do processo evolutivo para o qual decisões consentâneas entre as partes intervenientes são seguramente tomadas a níveis que nos escapam nesta pesada dimensão.

segunda-feira, 5 de março de 2012

“SELF” DE DIMENSÃO HUMANA




Tenho andado a pensar, de forma concentrada, nos diferentes “eus” que cada ser abriga. Aquilo a que os junguianos chamam o “self”.
Assumimos diferentes “eus” perante diferentes pessoas. Todos, sem excepção, passamos em maior ou menor grau por essa experiência de falseamento e tentamos manter um laço saudável entre os diferentes eus, numa ilusão de coerência e sentido de propósito pessoal. Contudo, quando este laço eventualmente se rompe, o eu que habitualmente apresentamos ao mundo, acaba em geral por se apresentar como falso.
Não se pode ser tudo, nem em tudo ser grandioso. Há que optar pelo nosso “self” mais verídico, mais forte e mais profundo, aquele que com maior acuidade possa corresponder na manifestação ao projecto da nossa alma. Só se lá chega com muito esforço e empenho, intenção sincera de humildade e uma certeira busca de verdade.
No cerne deste fenómeno dos múltiplos eus habita uma procura inconsciente da aprovação que o ser humano busca, de forma acentuada, junto dos grupos com que mais se identifica – aqueles que ama e aqueles que teme. A identificação com o agressor (psicológico, emocional ou físico) é uma ocorrência do foro inconsciente, em geral mascarada da aparência de amor, admiração ou até mesmo, para os mais intelectualizados, da necessidade de viver uma experiência diferente. Nos místicos, assiste-se por vezes, neste caso, à colagem ao conceito de karma que justifica interna e externamente a junção ao agressor.
Para um crescimento saudável – identificação e o assumir do eu mais genuino em nós – torna-se imperativo trazer este enredo à consciência e abdicar da necessidade de aprovação sempre que a mesma se faça à custa do sacrifício desse eu central. Este crescimento prende-se com uma renúncia profunda: a da dissociação, ou seja a da integração do bem e do mal.
Para isso há que desistir das simplificações – nada se escreve só a preto e branco – e aprender a viver com a ambivalência e as ambiguidades da vida real.
As percepções redutoras da vida remetem o ser humano para um perigoso infantilismo de mimetização camaleónica dos sinais exteriores com que julga identificar-se e levam-no a modelar o seu comportamento de acordo com os mesmos. Embora este eu possa apresentar-se muito convincente nos mais hábeis, numa leitura mais profunda ele apresenta a ausência de um estável amor próprio interno ao concentrar-se de forma egóica sobre si mesmo.

Em síntese: para um almejado equilíbrio, torna-se desejável ver mais fundo, compreender que secretos mecanismos, que carências, terrores e paixões nos manipulam a partir do inconsciente, o qual exerce um poder não controlado sobre os acontecimentos que atraímos para nós.
O sinal de que esse trabalho vem a ser feito pode ler-se na nossa renúncia progressiva à grandeza e na aceitação de um eu de dimensão humana.

(Abril 2005)