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sábado, 3 de março de 2012

FLOR VIVA DA IDENTIDADE

Falo busco o teu sorriso, sinal mínimo que seja de aprovação ou alento, persiste aparente desinteresse , na rua tudo igual carros motas-chiadeiras   campainha da porta telefone que não atendo, maçada de desarrumação e tenho fome.  Poder continuar a erguer desconstrução das falácias mas… e se tu fores uma delas?
Ninguém pode alhear-se do todo para sempre, precisa-se que nos digam qualquer coisa – bom mau assim-assim odioso replelente sublime – a identidade é uma flor viva a pedir rega.
Consolo o teu lamento como posso, alegas desvantagens princípios tortuosos ADN e outras paredes altas intransponíveis para a realização. Se renascidos a cada etapa escapamos à auto-ilusão de transferir responsabilidades, pois , como foi que não nos reformulámos e adaptámos às experiências vividas, ego escondido ausente de férias encapotado dissimulações várias. O ego actor central na interacção com o meio esgueira-se – ágil destreza atrás dos muitos papéis inventados a patinar sempre  sobre a culpa dos outros – cuidado com ele amante de teatro que nos aparta do essencial. Cuidado com ele – a fazer sempre falta fornecedor de referências valiosas para a compreensão do mundo.
Ah, estamos feitos!  Em geral, sim. Compulsão fantasiosa auto-percepção da nossa incomparabilidade, narcisísmo individual ou comunal, irresistível elistismo sempre a bater à porta ante a mediocridade geral. Raro mesmo é o sentido integrado da nossa identidade, ego estável relacionamento descomplicado com os outros, toalha da confiança básica estendida com brio sob os altos e baixos da passagem.

Uns da acção outros da contemplação mas há que nutrir q.b. a fonte da iniciativa, cada ser com a sua, está-se no ponto quando a pacificação interior se instala de vez, alegria não dependente da aprovação alheia, mas a fazer falta o feedback algo mais que os likes do facebook, visita à interioridade do outro no amor possível.

Serei eu… a falácia? Apropriadas as palavras conceitos livros palestras, donde vem tudo isto se aqui dentro dorme ainda a crisálida, tudo incerto titubeante em rascunho,  esboço de sopro a querer ganhar asas, o medo colado às comportas do ser aguarda a sua hora sempre adiada. Somos para além do que somos, seremos também o que fingimos ser para atingir...
Necessidade mútua, verdade precisa-se, genuina antiga como a luz do princípio dos tempos que o físico protuguês diz ter viajado mais velozmente que nos dias actuais.

Na rua tudo igual, sol do meio dia sol do dia todo agora que há seca, dizem que é bom olhar para o espelho contar as bençãos fazer listas planear a vida. Dizem tantas coisas, vá-se lá saber…
Consolo o teu lamento como posso, sem frete. Trazes marca distintiva, olho antigo alma de poeta fogo circunscrito contudo, seria bom revermos a matéria, arrumar as mágoas, assumir o enquinado. Seguir em frente que a hora é breve, não-lugar não-tempo para escolhos ilusórios conversa fiada hipérboles do nosso contentamento pequenino auto-contido miseravelmente explicado.
Precisamos da rega para que a flor viva se revele no esplendor seguinte.

quinta-feira, 1 de março de 2012

VIAGEM ÀS ORIGENS


“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes.
O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.”
FERNANDO PESSOA

A caminho da cidade berço corre a paisagem, estalam castanholas repetitivas nos carris às vezes um ronco, segue o matraquear lá fora tudo a correr ao contrário, as vistas a oferecerem-se  até que a curva ou o olhar cansado virem a página.
Quem sabe do que seríamos capazes se não houvesse limites, o tal perímetro dentro do qual nos debatemos mais ou menos adormecidos ou despertos – copo meio cheio copo meio vazio – interrogo-me sem certezas, ensonada e ainda em fraca ligação com aquele centro donde jorra a cristalina vibração da palavra poética.
Haverá um sentido nos limites do perímetro. Não se apreciaria talvez da mesma forma a viagem à antiga vila do Condado Portucalense, nem me sentiria grata por ter conseguido esticar o orçamento na celebração do dia especial desta outra alma. Destinos mais glamorosos, despreocupação e compras ilimitadas se o dinheiro fluisse a rodos, a comprar pagar a consumir o melhor, sem apreensões. Assim, absorvemos atentos os detalhes do momento que passa arrancado com despudor às limitações do tempo agora pois não devia ser - com a troika a crise o desemprego a falta de negócios – todos esses atavios dos media, insistentes diários, aspirantes a estátuas  de praça central filhos de um aborto chamado zona euro.
A caminho da cidade antiga, palco das origens morte ressurgimento, burgo a ostentar os orgulhos de se ver reconhecido, interrogo-me inquieta – o que sou quem sou ao que venho - coisas que pareço saber bem, coisas que me têm sido repetidas vividas lembradas mas em que às vezes é difícil acreditar. Pudor imenso perante a fantasia própria e alheia, abusiva apropriação dos mitos que nos entretêm como se de revelação íntima se tratasse.
Cansaço do faz de conta, dos deveres virtudes bom comportamento, exaustão que vem com a idade e a experiência, acho. Apagam-se por fim as luzes da ribalta e começa a ser a sério. A espectadora sou eu e vejo-me por fim sem as cosméticas do que de mim é esperado.  Abre-se um portal iniciático para um outro mundo misterioso até hoje quase silenciado pelas tarefas de superfície e tudo aquilo que vai acontecendo numa vida.
Na antiga praça feira de gado em tempos de outrora descubro o arquitecto do ferro. Acasos não-acaso apontam na direcção de se fazer o que mais se gosta para irradiar luz assim, borbulhante na fala, quase fractal nos filhos que me aporta, um ser humano a mostrar com desvelos os frutos da sua arte e do seu engenho, enciclopédico e renascentista num tempo moribundo de saber e empenho.
Mas o peso da Idade das Trevas permanence nestas bandas, sombras encavalitadas pedras graníticas, sufoco de pouco espaço. Tudo pincelado  da imaginação histórico-turística, certa patine de nobreza antiga nos edifícios do centro, o triste quarto de Catarina de Bragança no Paço Ducal, impecavelmente restaurado mas sem alma. Nota baixissima para a sem sentido absurda feia exposição de José Guimarães a desfear duas salas do palácio. Filho da terra sobretudo filho do tempo, revoltante promoção do feio grotesco, ah vida como reverter a insensata ordem de valores instalada  no mundo da arte?!
Guimarães sofre de “minimalitis”.  Cortou jardins – o Toural é já só uma enorme placa de cimento por onde a terra não respira - redecorou locais antiquíssimos com cadeiras plásticas e mesas de fórmica e vende paninhos bordados 15x15 a quarenta euros. Desolée, não posso! Não posso, não quero, o despropósito desta exploração tem de acabar.
Afáveis as gentes minhotas, orgulho de um sentir colectivo, dizem, melhores que os outros, acham-se, daqueles que não nasceram no berço da portugalidade.
Comida a mais.

Razão tem o poeta, as viagens são os viajantes.

Quadro: Arcanes de ANNE BACHELIER

domingo, 19 de fevereiro de 2012

SOMOS E PASSAMOS


Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos
SOPHIA DE MELO BREYNER ANDRESEN

Soava a tua voz como um murmúrio. Baixo e rouco, quase imperceptível. Ontem, a meio da tarde, o sol desproporcionado a inundar-te o quarto na casa onde se propõem devolver-te o andar, a vida frouxa. Soava pouco, a pouco, quase nada, no dia imperfeito que passava.
Não era tanto o que soava, mas o que algures velado pelas rugas, se desprendia a jorros do teu corpo débil, dos olhos mortos, tristes, rasos da água tépida que teimavas em segurar para que ninguém visse.
Tudo se desprende, o que resta preso por um fio, até a memória do que foi, os intermináveis dias de labor, as poucas alegrias, o sonho tão perseguido nunca chegado, o sonho de seres o que sabias ser sem o poder pois os muros altos, as incontornáveis barreiras da limitação agrediam-te ameaçadoras, sempre, cada dia uma luta, um persistir no impossível, frágil mulher toda feita coragem…
Defraudada, enfim, alguém te mentiu, “não mais, sem volta a dar” nunca figurara antes no teu léxico. Mas agora és cada vez mais a sombra do que sonhaste, escapa-se tudo, a acção certeira e competente, as plantas florescentes sob as mãos dotadas, as crianças continuidade tua - tão lindas e doces e de olhos claros  como tu gostas- a casa da familia paredes objectos amados, memorias tantas em todos os cantos, dias muitos para trás de hoje. Tudo se esvai menos essa dor intensa, aguçada, pena mágoa desgosto de já não poder sonhar ser o que sabes ser sem o poder ser.
Agora já nada se sabe, tanto é dia como é noite, que importa, instalou-se uma fragilidade velhaca e traiçoeira no coração da vida, vida repetida sempre igual, sabor a nada, batas brancas, verdes, azuis, oxigénio, soro, ambulâncias, onde estou eu, meu Deus, para onde vou, será para breve ou ainda me resta alguma chance…
Emudeceste no terror da impotência, as mãos trémulas, artríticas, castigadas e ora inúteis, sentes, as mãos que beijo reverente na tarde absurda e ensolarada no mundo
onde “somos e passamos”, o mundo onde nos permitimos mutuamente e nos amámos, onde debaixo dos meus olhos doridos o fogo da velhice e da doença te queimam, aos poucos, no silêncio implacável do devir. E eu estou contigo, não porque o escolho, mas porque o sou, contigo, Mãe, com a tua lenda e a tua inconfessada Dor, a de não poderes sonhar mais ser o que sabes ser sem o poder…

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SAUDADE


 A Saudade é um ente feminino.
 Vestida de impossíveis e de faltas,  aninhada no coração do desejo profundo  desloca-se no sentido inverso à linha e desafia Cronos com a exuberância de uma mulher sábia, intimamente ligada à sua proto-natureza. Inefável e experienciada com solenidade pela alma, permanence solitaria e viva no Verbo pela mão de um único idioma, o lusitano.
De onde veio e por quê só Portugal lhe dá voz? Cruzam-se nela memórias do povo navegador  que lhe deu nome quando, de terras longínquas, juntou numa só palavra saudação, falta, amor e bons votos de saúde. Mas Saudade é mais do que isso, ela espraia-se como aguarela derretida e entranhada nas células do corpo lusitano,  Saudade é partida e é chegada, morte e parto iminente que teima em não acontecer de um elo perdido, experiência indelével que sem se mostrar não nos larga.
Contudo, de um modo ou de outro, mais ou menos distanciados, toca-nos a todos. Não só os oriundos desta patria antiga, mas todos os povos do mundo sentem em qualquer grau esse impulso de recuperação de algo que lhes foge e a que anseiam regressar.
De olhos ao alto e na interioridade, buscamos aquilo para que a Saudade nos remete mas cujo rosto desconhecemos.

Saudade é melancolia, talvez sonho do regresso nostálgico de um passado que não sabemos descrever, um dia completo  e absoluto cuja não-memória mas profunda marca nos causa uma dor quase prazenteira.  Canto, choro, lamento das profundezas,  mulher das brumas a um tempo inacessível e presente, mítica deusa portadora de um futuro antigo, a Saudade respira como uma segunda natureza e esconde-se na latência do ser, mágica e recordatória do que sabemos sem o saber. Propaga vazios, ausência, sofridos desejos de retorno, faz experimentações pela voz do Poeta, plasma-se nas telas dos pintores, irrompe em dor criativa da pedra esculpida, canta sentida na “Voz de Portugal de seu nome Amália”, como disse Fernando Dacosta.
Saudade é não saber da Mãe que nos deu vida mas senti-la vibrar em cada momento, magna e transcendente , no infinitamente pequeno do corpo do que somos.

Branca, ausente e ubíqua, sarça ardente, promessa de dias rarefeitos,  resquício velado da Glória, sustentas-me Saudade no meu regresso a Casa.

sábado, 28 de janeiro de 2012

QUASE

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe de asa ...
Se ao menos eu permanecesse aquém ...”
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Dormida ainda, acordo num abraço.

Nem consigo ver se já é dia, a névoa onírica enrola línguas de mel e vaguidão em volta do meu ser ido, quase vindo, a consciência é somente este amplexo firme, tingido de alegria, beijos enrolados uns nos outros viajam dos meus lábios para o coração, centro cantante, espuma amorosa, a magnificência de si…
Tudo, tudo ele abarca, o abraço mais abraço que alguma vez vivi. Pássaros meigos corroboram este passageiro estado que quisera eterno, correm imagens dos dias de antes, nem sempre me vejo já tão certa aqui ou pura ali, abraço-me, abraço-me porém, tudo cabe dentro do mesmo amor e só isso importa.


Dormida ainda, mas já a acordar. Para um sono outro, o da realidade. Do despertador e das coisas inadiáveis, da representação, papéis, do põe-máscara-tira-máscara, ora agora ganho eu ora agora ganhas tu (?!), enganosas notícias que querem dizer outra coisa distinta do que dizem, futuro incerto, fim do euro, desastres, miséria, presságio de calamidades a poluir os éteres como veneno - pó fino exposto à nortada…

Desperta já, agarro quanto posso a memória escorregadia desse abraço de amor total, todo envolvente, por via dele a manhã tornou-se de um azul anilado, iridiscente, a palavra tem novos poderes, sou o doce gigante dentro de mim a soltar os passáros da dor de sombrias gaiolas,

evaporam-se as tramas de superfície, nada ficará como parecia ser…


Desperta já, a um passo de mim mesma, coisa minima, suavíssimo golpe de asa, quase, quase…

sábado, 21 de janeiro de 2012

CORAÇÃO FLAMEJANTE versus ESTADOS FEBRIS


Há que estabelecer uma diferenciação entre o fogo do coração flamejante que promove o avanço do ser em direcção ao seu centro e os estados mentais febris experienciados por muita gente e os quais são facilmente confundidos com o primeiro.

O coração animado pelo Fogo assenta, em geral, em estruturas anímica e da persona equilibradas e não é motivado nem responde a estímulos de tipo sensacionalista, promissores de milagres imediatos ou de radical transformação das personas, de um momento para o outro. Cantar mantras, frequentar workshops de desenvolvimento pessoal, submeter-se a um sem número de terapias – o catálogo das disponíveis actualmente é impressionante! -, adorar e seguir cegamente um guru ou simplesmente trajar de monge tibetano ou com vestes alvas, só por si não produzem qualquer modificação qualitativa no ser humano. Contudo, é frequente depararmo-nos com pessoas inflamadas por uma “febre de espiritualidade” ligada a um ou mais dos factores anteriormente apontados.

Fundei há anos uma livraria especializada nestas matérias ditas do espírito e, no contacto com o público, fui-me dando conta da frenética apetência de grande parte dos frequentadores para entrar em estados de lamentável excitabilidade, os quais derivavam facilmente para um sentimento de superioridade em relação aos outros comuns mortais por “não serem nada espirituais”.

A atracção do atalho para encurtar a rota funciona neste caso da forma ilusória que lhe é própria e por demais conhecida dos seres que trabalham seriamente na sua evolução. Não há como não percorrer o caminho inteiro, com todos os seus obstáculos e testes, não há como não lidar com a sombra, só o posicionamento humilde e persistente no trabalho da consciência nos permite passar os estreitos portais para o Conhecimento e para a Luz.

Na dita livraria, vi-me a braços muitas vezes com a embaraçosa situação de ser questionada sobre as minhas “habilidades paranormais”. O meu protesto no sentido de ser uma pessoa completamente normal, não detentora de capacidades mágicas de cura ou do “abre-chakra, fecha-chakra”, muito em voga, era quase sempre rejeitado por parte dos interlocutores com um olhar misterioso de entendimento cúmplice e secreto a que se seguia num múrmurio, “Compreendo, não pode falar…”.



Pois falar, escrever, é aquilo que posso realmente fazer. Assim, sem pretensões a ser quem não sou, o que não sou.

Ando por aqui, às apalpadelas como os outros, agarrada às palavras a ver se me descubro mais, se me oriento no caminho para o centro, se me não distraio de mim e daquilo a que vim.

A ver se o Fogo se acende de forma permanente e o Coração Flamejante abre as asas ígneas e me permite o Voo!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

LUXO


Sempre escolhi o luxo e tenciono continuar a fazê-lo!



Eis uma frase politicamente incorrecta e que pode atrair todo um chorrilho de críticas e até ofensas por parte de quem a ouve num mundo como aquele em que vivemos, ensombrado por vastas áreas de miséria e sofrimento e em que a esmagadora maioria vive abaixo de níveis suportáveis de pobreza.

Será por isso importante que eu aclare algo que muitos já esqueceram e que está na raiz da minha afirmação.



No coração da palavra “luxo” vive o seu étimo latino, Lux, o qual como é sabido, significa Luz. Assim, escolher o luxo é, para mim, trazer luz a todas as áreas da vida, tingir de luminosidade aquilo que, de outro modo, se apresentaria neutro ou mesmo ensombrado.

Luxo é escolher a beleza em todos os cenários em que me movimento. A beleza está à nossa disposição por toda a parte pois vivemos num planeta essencialmente belo. A escritora açoriana Aldegice Machado da Rosa escreveu um dia que nunca compreendeu por que é que a chita tem de ter padrões feios, se custa exactamente o mesmo fazê-los bonitos.

Luxo é buscar o conhecimento por todos os meios ao meu alcance, ser capaz de escolher as  melhores fontes, utilizar as novas tecnologias de forma maximizada para esse fim, comprar os livros desejados, ter tempo para escrever o que a minha alma me pede.

           Luxo é sentir o amor dos que me cercam, dispor de tempo para fazer programas com os meus netos, sentar-me na biblioteca com o mais velho e passar-lhe versões adaptadas à sua idade  do pouco que vou sabendo.

Luxo foi a opção quando, ainda muito jovem, não abdiquei de ter flores e velas no meu pequeno apartamento em detrimento de refeições completas, a certa altura do mês.

Luxo é poder receber  hoje na minha casa a minha mãe velhinha e impotente perante a doença e a idade avançada e proporcionar-lhe afecto, conforto, cuidados de saúde, uma antecâmara luminosa para a partida desta dimensão.

Luxo é ter alguns poucos amigos de espírito afim e com eles partilhar a jornada, luxo é conseguir dividir os meios próprios com quem mais precisa e não me sentir defraudada ou diminuída de recursos.

Luxo é não reter, é optar por utilizar as melhores porcelanas no dia a dia, encher a casa de flores, é ter um jardim, uma horta e cuidá-los com amor.

Luxo é ser mãe de filhos que me amam verdadeiramente e me respeitam, ser avó de netos com quem se esboça uma relação gratificante e fundada na alegria e celebração da vida.

Luxo é colocar no meu corpo os trajes que ele pede, independentemente de modas ou da opinião alheia, para assim melhor me poder manifestar.

Luxo é considerar que uma determinada obra de arte  que me toca particularmente e que está nas minhas mãos há-de atrair a casa certa para eu morar e isso acontecer.

Luxo é buscar-me a mim mesma e viajar na barca da determinação e da humildade para o meu centro, não obstante as distracções.



Luxo é luz para o meu ser e para o que me rodeia e não tem para mim a conotação de sumptuosidade excessiva, culto do supérfluo caro e símbolo de “status” com que o comércio e a sociedade tingiram a palavra.  A humanidade actual tende a esquecer a origem das coisas, fixa-se no que lhe é hoje apresentado como facto consumado e tal processo não pode servir a evolução pois esta só ocorre de forma sustentável se correctamente informada.



Luxo é também poder escrever sobre este tema e ter-te aí do outro lado como receptor e, espero, critico construtivo.



Quadro: CATRIN WELZ-STEIN