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sábado, 14 de janeiro de 2012

ORA PRO NOBIS



Sair do óbvio, da repetição conhecida. Cortar as amarras, seguir com fé o estremecimento que me faz abrir os olhos para outra coisa dentro de mim, escalar a montanha interna segura apenas no levíssimo alento de uma esperança de ser, sair, sair da história antiga e previsível, entregar-me aos braços amantes de uma vindoura Eu, que sou Eu sem o ser mais…

Atravessar a ponte levadiça na hora última, que a vida é breve e o sonho elusivo, desfazer a crusta das ilusões hirtas dentro de mim, sair, sair para os inexplorados espaços interiores onde habita o canto desconhecido, sair para a entrada, para o acesso ao centro.

Largar os compassos de espera do amanhã pois o amanhã é hoje, aqui, no momento em que respiro pausadamente na rota da evolução. Sair, sair da Estrada conhecida, calcorreada há tantas vidas de desgaste e dor. Sair do sufoco, do sofrimento, gerar sem dor essa flor vibrante e fresca que é o meu caminho.

Abrir espaço para o Fogo dinâmico do avanço, o Pensamento claro e organizado, a Inteligência do Corpo e a inefável capacidade de Sonhar.

Integrar os opostos na sua metamorfose ao centro pois passou o tempo de alimentarmos o que nos desintegra.

Querer, querer esculpir a Vida a partir da Alma, vislumbrar as jóias do Divino,  cultivar a Beleza, deixar um luminoso rastro à passagem…



Assim eu oro. Por mim, por ti, pelo “nós” que quer saltar da roda antiga, que nos sabe para além do que aparentemente somos e da nota que o mundo nos atribui.

Ora pro nobis!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

PORTUGUÊS DE PORTUGAL, DO MUNDO



Ah, a língua! A língua, o poderoso fluxo que dá voz à  minha alma,  matéria-prima dos poetas,  voz do amor e da saudade derramada no papel, espírito vivo de séculos de marcha e experiências de um povo banhado pelo mar salgado…

Querem-te à força uniformizar, dar-te contornos incoerentes, desligados, cortar-te as asas poéticas – por obsoletas, dizem – querem que eu seja “espetadora” do mais degradante espectáculo (passe o pleonasmo, que o não chega a ser pois falta o “c” no sujeito), querem-te igual aos que te escrevem sem te saberem originalmente, só porque são muitos, muitos mais que nós e se expressam lá tão longe do teu solo pátrio…

Querem-te simplificada, sem adornos de acentos, igual em todo o lado, ininteligível para quem te estudou e absorveu com o amor ao sangue próprio, querem-te feia e minimalista, os meses a perderem a sua maiúscula e eu sem saber se ato ou desato?!

Mas quem, quem avalizou este crime? Quem assinou aquilo que coage artificialmente a voz escrita de um povo a tornar-se de um momento para o outro aquilo que não é e que não quer ser, quem são os que me ignoram e a ti e ao outro, indiferentes aos nossos gritos de angústia e protesto? Quem lhes deu poder, encomendou o sermão, por que é que eles avançam apesar dos movimentos contrários, petições, luto na alma?

Não passarão, prometo-te, Língua-mãe, Pátria de Pessoa, Camões, Natália, Pátria  minha, Shambala da nossa transcendência, colo dos meus sonhos, Voz inigualável de uma missão por cumprir!

Bela e ancestral, mulher e ventre, fértil seiva que as almas trabalham há tantos séculos, prometo-te respeito e obediência ao teu fluir natural que é feito de tantas coisas subestimadas pelos interesses  políticos e comerciais…

Mar e terra, voz do vento, pássaros do dia e da noite, dor e poesia, o indizível que baila nos olhos do navegador e do camponês, cheiros, fome, sede e luar aceso sobre os montes do sul em noites de lua cheia, cantos desgarrados, vozes antigas, deslembradas, a memória e o sonho de quem quer ser…

Ninguém me arrancará de ti, escutarei atenta o bater do teu coração sobressaltado e nele hei-de verter sempre, com amor e devoção, as produções da minha alma.

sábado, 7 de janeiro de 2012

DA BANALIZAÇÃO DA DEUSA


Estou farta da Deusa! Desculpem-me pelo desabafo, Mulheres & Deusas, mas o meu compromisso com a minha escrita é o de um esforço de verdade e tenho de a expressar em conivência com a minha alma,  como puder e o melhor que eu saiba.

Estou farta de ouvir as mulheres se assumirem como deusas, embarcarem em folclóricas invocações, representarem a Mãe Primordial com longos cabelos, olhos azuis e vestes diáfanas, estou cansada de ver atribuir-lhe a responsabilidade de qualquer trivia com um arrogante “Foi a Deusa em mim, no meu coração!”
A este nível  aconteceu à Deusa o que há muito se passou com a palavra Amor: de tão utilizada, a propósito de tudo e de nada, caiu na vala da banalização.

Creio que seria de alguma utilidade tentar definir a palavra “Deusa”, de modo a que possamos acercar-nos mais à sua verdadeira energia.
Há um par de anos, uma amiga próxima contou-me que, num raro encontro com seres das Pleiades, havia sido informada de que ela, noutros universos, era/havia sido deusa. Contou-me a minha amiga que ficou perplexa e confundida com esta informação até que os Pleiadianos lhe explicaram que o ser deusa, nesses níveis vibratorios, se refere simplesmente a um nível de Consciência mais elevado, sem qualquer conotação com as mitologias e crenças da Terra e, sobretudo, sem conceito de hierarquia.
Tocou-me profundamente esta informação pois, no meu coração, eu sempre soube que devia andar por aí.

A deusa não é alguém exterior a nós, não está sentada num trono, não viaja pelos espaços siderais, não abençoa umas e condena outras. Sentir a Deusa em nós deverá corresponder a um estado vibratório cujo poder advenha de uma consciência mais expandida pelos infinitos mundos da Compaixão, Sabedoria, Intuição, Paz Interior e Auto-determinação. Estados que , infelizmente, ainda não são permanentes na maioria de todas nós. Mais a mais, muitas mulheres nem sequer iniciaram o inadiável trabalho com a sua consciência psicológica, base indispensável para a evolução pessoal.

Deusa é uma palavra de ouro!  Há que preservá-la como tal e dar-lhe utilização com a cautela necessária para que não dê origem a mais simulacros dos que já empestam os ares da nossa manifestação na Terra.
Embora eu, enquanto ser encarnado no planeta,  seja profundamente ritualística, aprecie sobremaneira a mitologia e o simbolismo, repugna-me contudo a confusão e falta de discernimento em que se cai. Vejo “deusas” que se degladiam e se traem umas às outras, “deusas” cuja mobilidade de afectos e de propósitos é no mínimo surpreendente, “deusas” que julgam com dureza a imperfeição alheia inconscientes da própria, “deusas” que esquecem rapidamente os seus votos de irmandade com as outras “deusas”, logo que um deus qualquer aparece no horizonte.
Vejo tantas coisas e tão tristes que, com frequência, me prefiro voltar para quem ainda não entrou conscientemente nestes domínios e concentrar-me nos actos despretensiosos do dia a dia. Como podar as roseiras, antecipando agradecida a beleza com que me hão-de presentear na Primavera ou embalar a minha Mãe velhinha nos meus braços feitos Amor e Desvelos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

DEIXAR DESCER O ESPLENDOR



CARTA A UMA AMIGA QUE PARECE DOENTE



Tinha-me esquecido, minha querida, de como é luminosa a comunicação entre nós. Gostei tanto, mas tanto de te rever e de retomar sem qualquer dificuldade a nossa conversa de há décadas. Já temos cabelos brancos (eu mais do que tu) e, ontem, aquilo pareceu-me uma espécie de reencontro numa nova encarnação, pois sendo as mesmas, estamos ambas tão mais amadurecidas.


Evitavas falar de ti – sempre o fizeste toda a vida – e talvez isso nos forneça a pista principal para o que se passa contigo . Sempre te dividiste e subdividiste para atender às necessidades da tua tribo, de algum modo deixaste que o consenso familiar, tribal insisto, se sobrepusesse à oportunidade de SERES quem és aí dentro, mente ágil percepção aguda, a leveza de uma doçura profunda  e pouco assumida nesse austero auto-tratamento que te impões

Nada de que eu nalgum grau não tenha padecido também (ou padeça ainda),  daí ser fácil identificar a história.

Com alguma dificuldade, lá te arranquei a descrição dos sintomas, o incómodo torturante que te acompanha todos os dias e deixaste transparecer, da forma discreta que é a tua, a inquietude face ao desconhecido – os medicos não sabem o que é, têm de continuar a fazer exames, os medicos não prestam, fazem-te perder tempo, há que encontrar novos, etc, etc (onde é que eu já ouvi isto?) – um desconhecido que, pior que a morte, pode representar a incapacitação.

Quero dizer-te uma coisa, minha amiga antiga, sem qualquer presunção mas bem convicta do que digo porque o sinto na  alma: não estás doente! Ou por outra, pareces estar, mas é tão óbvia a ligação desses sintomas com as armadilhas em que caíste na vida que me parece que  se te fores libertando delas, na medida do possível, a tua condição regredirá. Sugiro que comeces por pequenos passos, balões de oxigénio para o teu ser exausto. Fala a fome com a vontade de comer, bem sei, mas eu já enveredei em parte por esse caminho e sinto-me cada vez mais centrada em mim mesma, portanto melhor.
Como te disse, o André Louro de Almeida lembrou, numa conferência recente, que a mais importante receita de cura para os males físicos e emocionais reside na capacidade de DEIXAR DESCER O ESPLENDOR em cada um de nós. A memória desse esplendor, embora encoberta pelos mil véus do olvido, habita no centro do nosso coração dourado e é aí que a devemos buscar.

És uma mulher excepcional e, por conseguinte, podes atrair para ti todas as excepções às regras normóticas.

Envolta no mais caloroso abraço, deixo-te aqui a minha crença em ti e na tua capacidade de tomares as rédeas do teu destino e desafiares o provável.

Pouco a pouco, quase subversivamente...tal como a vida acontece a todos nós, em geral.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA


 “Como figura internacional tenho a mesma eleição que a revista TIME: o protesto, precisamente porque ele vem nos antípodas do que eu acho que está a passar-se em Portugal, que é a diminuição intelectual de todos nós. [...] Quando o ministro Relvas [...] toma decisões unilaterais sobre coisas tão importantes como o serviço público sem que haja um único protesto cívico [...] isto é o fim da democracia [...]. É a aceitação de tudo; “nós já tomamos a decisão por vocês”. Ora isto cheira-me a quê? Eu já vivi no sistema antigo em que as pessoas tomavam a decisão por mim e me diziam o que é que eu devia fazer; nisto sou mais liberal que o Governo. E portanto, o protesto é para mim muito importante: Occupy Wall Street, o protesto árabe, totalmente inesperado [...]. E como quem já leu história, quem continua a ler história, coisa que estes governantes não fizeram, sabem que o inesperado acontece. E mais: sabem que quem comanda a História, de um modo kitsch ou não, como dizia o Kundera, são as massas, e o mundo vai mudar.”

Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal, SIC Notícias (25/12/2011)


Estou em muito de acordo com Clara Ferreira Alves.  Mas acho que há muitas coisas que comandam a história. Depende do local onde a história acontece. Depende do povo a quem ela acontece. Depende sempre e sobretudo do grau de desespero económico a que os povos chegam.

De facto,  este governo tem uma escassa margem de manobra. Pequena economia satélite, há muito gerida pela histórica incompetência dos seus governantes e a inércia dos governados, a Lusitana Pátria perdeu tudo quanto possa cheirar a soberania, intervencionada por gigantes que não estão aqui a fazer caridade e que dão as ordens mais conducentes à boa saúde dos seus empréstimos. A Lusitana Pátria parece destinada a um futuro sem esperança, sobretudo, atrevo-me a dizer, pela falta de consciência e de coragem do seu povo. Refiro-me é claro à consciência de quem se é, donde se vem e do potencial de transformação da realidade quando nos atrevemos a lançar um olhar renovado e objectivo sobre o que nos acontece, as razões porque acontece e a forma como estamos ou não equipados para reconduzir Portugal ao trilho do seu verdadeiro destino.
Isto pressupõe que as pessoas conheçam a sua história passada, tenham mergulhado nos seus mitos e tradições, saibam identificar e  reconhecer correctamente as falhas do passado e trabalhem todos os dias  no reconhecimento da alma secreta do seu berço, a entidade a que chamamos o nosso país. 

As raízes espirituais de um povo e o seu imaginário fornecem pistas valiosas para a salvação. Tal como em épocas intensas  de  dor e dificuldades, a pessoa humana tende a refugiar-se na família, se amorosa e compassiva e de genes afins, também um povo em crise deve buscar nas suas fundações, nos sinais indicadores do seu destino espiritual, a orientação necessária para recuperar o equilíbrio e a harmonia.
Portugal tem vivido desde há muito claramente apartado do seu espírito maior. Esquecido de que é essencialmente místico e rural, navegador e poeta, o país tem tentado ser antes estrangeiro, quem diz americano diz europeu, depende das épocas, Portugal fixou-se no Ter (ter casa, ter carro, ter férias em Havana ou Londres, ter mais e melhor) quando Portugal é um Ente do SER.

Não sei o que vai acontecer, porque não tenho bola de cristal e mais a mais o futuro é um plasma em constante movimentação. É previsível que haja mais greves, revoltas, mais violência e dor. Tudo em vão, nada valerá a pena pois passou o tempo histórico (e cósmico) em que isso podia levar à melhoria das condições de vida dos povos.
O tempo é outro, pede-nos medidas que surjam da nossa interioridade, que façam sentido à luz de quem somos intrinsecamente. Pede-nos recolhimento e readaptação à terra e ao mar e a consciência de que a estatura de um povo mede-se pelo seu canto, nunca pela capacidade de ter.

As vozes de Camões, Natália, Pessoa, Sophia, Jorge de Sena, Florbela e Alegre entre tantos outros, ecoam na minha alma e chamam-me à obra.
A minha, sobretudo pela palavra.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

MUNDOS PARALELOS


Diz-se que outras eu vivem, em mundos paralelos,  desenvolvimentos diferentes da minha história.
Outras eu sofrem na pele o que me foi poupado, conhecem alegrias que eu não toco, derramam no papel as palavras para que não tenho tempo, comem o pão que o diabo amassou, amam são amadas corpo alma tudo.
Simultâneas, concomitantes, complementares, alheias, partes de um todo, vivemos  em paralelo e à revelia umas das outras, misteriosos pedaços de um só ente plasmado no coração do universo.
Talvez que as outras eu sejam só a fantasia de mim mesma, como eu delas o sou, todas apostadas num esclarecimento que não chega e na libertação.
Se nos encontrássemos todas, cada uma acorrentada ao seu rosário de chagas e imperfeições, cada uma prisioneira do seu choro soberana do seu canto, se essa convergência de mundos ocorresse talvez pudessemos por fim vislumbrar a verdadeira face da Deusa e relembrar quem em verdade somos e ao que vimos, nesta parte do todo por onde hoje navegamos.

Diz-se que ninguém vive sózinho. Coexistimos  uns com os outros aqui, com as almas afins e com as outras, mas sobretudo com as alternativas partes de nós mesmos, que noutros mundos vivem o nosso inviável de hoje, exploram os caminhos que se nos fecharam aqui ou registam pela dor os contornos da sombra que escolhemos ignorar.
Coexistimos na saudade do ser inteiro para o qual as personas são só máscaras,  efémeros instrumentos de afirmação de um ego em geral doente, preso da absurda ilusão da superioridade.
Relembrar, trazer de volta os acessos, reconstruir as pontes com o invisível, saber, mas saber deveras, que  percepcionar a vida apenas pelos cinco sentidos nos arredou há milhares de anos de quem verdadeiramente somos.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

PARÁBOLAS

 Com palavras amo, escreveu o poeta. Com palavras canto, danço fantásticos passos de criação,  encontro as matizes secretas das coisas, apalpo ao de leve o pulsar profundo da vida. Com palavras subo à nota mais vibrante da oração, rasgo janelas sobre mundos esquivos, apaziguo as minhas ânsias e dou rosto ao indizível, por momentos deusa efémera do Verbo.
Escritas como se de fonte eterna elas brotassem, as palavras esculpem as minhas horas e aí deixam o rastro do choro ou do êxtase, soluçantes e mágicas, testemunho da passagem.

Com palavras me descubro e me revejo, sem saber que sou aquilo que as palavras me dizem que eu sou. Com palavras amo, sim, e com palavras mato. Exorciso, exerço a tentadora prática da sedução, reponho a verdade e construo a mentira da ilusão. As palavras doces, as intensas, as profundas, as orgásticas. As duras, certeiramente mortais, as ditas palavras de agape e de luz bem como as suas sombrias companheiras do desamor.
Com palavras incito, inspiro, embelezo, castigo, reduzo a cinzas, faço os meus lutos, apoio o outro, lanço no ar perfumes de coisas por saber ou relembrar, invento eternidades no que já passou ou nunca foi. Com  palavras sou maior, sou mais eu e deixo de ser quem sou pois elas transcendem os meus limites conhecidos, ponte entre mim e Eu e mais alguma coisa que não sei o que é mas que vibra em contínuo, inalcançável quase sempre na latência dos dias.

Faço tantas coisas com palavras,  refaço-me a mim e, de cada vez, abrem-se inesperadas brechas para o que eu já era sem o saber. Com palavras eu descubro outras palavras dentro delas, mundos, intermundos, sinapses de um todo incompreensível, estonteante.
Serão parábolas, afinal, formas de me representar e ao fogo que me anima, instrumentos de construção/destruição, assentes num núcleo mórfico e periferias dançantes, laços precários com a eternidade.

Com palavras escrevo, respiro. Não sei o que são, donde vêm, mas habitam-me, poderosamente emotivas e transformadoras e nelas me celebro, no fugaz instante que passa.