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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

DEIXAR DESCER O ESPLENDOR



CARTA A UMA AMIGA QUE PARECE DOENTE



Tinha-me esquecido, minha querida, de como é luminosa a comunicação entre nós. Gostei tanto, mas tanto de te rever e de retomar sem qualquer dificuldade a nossa conversa de há décadas. Já temos cabelos brancos (eu mais do que tu) e, ontem, aquilo pareceu-me uma espécie de reencontro numa nova encarnação, pois sendo as mesmas, estamos ambas tão mais amadurecidas.


Evitavas falar de ti – sempre o fizeste toda a vida – e talvez isso nos forneça a pista principal para o que se passa contigo . Sempre te dividiste e subdividiste para atender às necessidades da tua tribo, de algum modo deixaste que o consenso familiar, tribal insisto, se sobrepusesse à oportunidade de SERES quem és aí dentro, mente ágil percepção aguda, a leveza de uma doçura profunda  e pouco assumida nesse austero auto-tratamento que te impões

Nada de que eu nalgum grau não tenha padecido também (ou padeça ainda),  daí ser fácil identificar a história.

Com alguma dificuldade, lá te arranquei a descrição dos sintomas, o incómodo torturante que te acompanha todos os dias e deixaste transparecer, da forma discreta que é a tua, a inquietude face ao desconhecido – os medicos não sabem o que é, têm de continuar a fazer exames, os medicos não prestam, fazem-te perder tempo, há que encontrar novos, etc, etc (onde é que eu já ouvi isto?) – um desconhecido que, pior que a morte, pode representar a incapacitação.

Quero dizer-te uma coisa, minha amiga antiga, sem qualquer presunção mas bem convicta do que digo porque o sinto na  alma: não estás doente! Ou por outra, pareces estar, mas é tão óbvia a ligação desses sintomas com as armadilhas em que caíste na vida que me parece que  se te fores libertando delas, na medida do possível, a tua condição regredirá. Sugiro que comeces por pequenos passos, balões de oxigénio para o teu ser exausto. Fala a fome com a vontade de comer, bem sei, mas eu já enveredei em parte por esse caminho e sinto-me cada vez mais centrada em mim mesma, portanto melhor.
Como te disse, o André Louro de Almeida lembrou, numa conferência recente, que a mais importante receita de cura para os males físicos e emocionais reside na capacidade de DEIXAR DESCER O ESPLENDOR em cada um de nós. A memória desse esplendor, embora encoberta pelos mil véus do olvido, habita no centro do nosso coração dourado e é aí que a devemos buscar.

És uma mulher excepcional e, por conseguinte, podes atrair para ti todas as excepções às regras normóticas.

Envolta no mais caloroso abraço, deixo-te aqui a minha crença em ti e na tua capacidade de tomares as rédeas do teu destino e desafiares o provável.

Pouco a pouco, quase subversivamente...tal como a vida acontece a todos nós, em geral.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA


 “Como figura internacional tenho a mesma eleição que a revista TIME: o protesto, precisamente porque ele vem nos antípodas do que eu acho que está a passar-se em Portugal, que é a diminuição intelectual de todos nós. [...] Quando o ministro Relvas [...] toma decisões unilaterais sobre coisas tão importantes como o serviço público sem que haja um único protesto cívico [...] isto é o fim da democracia [...]. É a aceitação de tudo; “nós já tomamos a decisão por vocês”. Ora isto cheira-me a quê? Eu já vivi no sistema antigo em que as pessoas tomavam a decisão por mim e me diziam o que é que eu devia fazer; nisto sou mais liberal que o Governo. E portanto, o protesto é para mim muito importante: Occupy Wall Street, o protesto árabe, totalmente inesperado [...]. E como quem já leu história, quem continua a ler história, coisa que estes governantes não fizeram, sabem que o inesperado acontece. E mais: sabem que quem comanda a História, de um modo kitsch ou não, como dizia o Kundera, são as massas, e o mundo vai mudar.”

Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal, SIC Notícias (25/12/2011)


Estou em muito de acordo com Clara Ferreira Alves.  Mas acho que há muitas coisas que comandam a história. Depende do local onde a história acontece. Depende do povo a quem ela acontece. Depende sempre e sobretudo do grau de desespero económico a que os povos chegam.

De facto,  este governo tem uma escassa margem de manobra. Pequena economia satélite, há muito gerida pela histórica incompetência dos seus governantes e a inércia dos governados, a Lusitana Pátria perdeu tudo quanto possa cheirar a soberania, intervencionada por gigantes que não estão aqui a fazer caridade e que dão as ordens mais conducentes à boa saúde dos seus empréstimos. A Lusitana Pátria parece destinada a um futuro sem esperança, sobretudo, atrevo-me a dizer, pela falta de consciência e de coragem do seu povo. Refiro-me é claro à consciência de quem se é, donde se vem e do potencial de transformação da realidade quando nos atrevemos a lançar um olhar renovado e objectivo sobre o que nos acontece, as razões porque acontece e a forma como estamos ou não equipados para reconduzir Portugal ao trilho do seu verdadeiro destino.
Isto pressupõe que as pessoas conheçam a sua história passada, tenham mergulhado nos seus mitos e tradições, saibam identificar e  reconhecer correctamente as falhas do passado e trabalhem todos os dias  no reconhecimento da alma secreta do seu berço, a entidade a que chamamos o nosso país. 

As raízes espirituais de um povo e o seu imaginário fornecem pistas valiosas para a salvação. Tal como em épocas intensas  de  dor e dificuldades, a pessoa humana tende a refugiar-se na família, se amorosa e compassiva e de genes afins, também um povo em crise deve buscar nas suas fundações, nos sinais indicadores do seu destino espiritual, a orientação necessária para recuperar o equilíbrio e a harmonia.
Portugal tem vivido desde há muito claramente apartado do seu espírito maior. Esquecido de que é essencialmente místico e rural, navegador e poeta, o país tem tentado ser antes estrangeiro, quem diz americano diz europeu, depende das épocas, Portugal fixou-se no Ter (ter casa, ter carro, ter férias em Havana ou Londres, ter mais e melhor) quando Portugal é um Ente do SER.

Não sei o que vai acontecer, porque não tenho bola de cristal e mais a mais o futuro é um plasma em constante movimentação. É previsível que haja mais greves, revoltas, mais violência e dor. Tudo em vão, nada valerá a pena pois passou o tempo histórico (e cósmico) em que isso podia levar à melhoria das condições de vida dos povos.
O tempo é outro, pede-nos medidas que surjam da nossa interioridade, que façam sentido à luz de quem somos intrinsecamente. Pede-nos recolhimento e readaptação à terra e ao mar e a consciência de que a estatura de um povo mede-se pelo seu canto, nunca pela capacidade de ter.

As vozes de Camões, Natália, Pessoa, Sophia, Jorge de Sena, Florbela e Alegre entre tantos outros, ecoam na minha alma e chamam-me à obra.
A minha, sobretudo pela palavra.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

MUNDOS PARALELOS


Diz-se que outras eu vivem, em mundos paralelos,  desenvolvimentos diferentes da minha história.
Outras eu sofrem na pele o que me foi poupado, conhecem alegrias que eu não toco, derramam no papel as palavras para que não tenho tempo, comem o pão que o diabo amassou, amam são amadas corpo alma tudo.
Simultâneas, concomitantes, complementares, alheias, partes de um todo, vivemos  em paralelo e à revelia umas das outras, misteriosos pedaços de um só ente plasmado no coração do universo.
Talvez que as outras eu sejam só a fantasia de mim mesma, como eu delas o sou, todas apostadas num esclarecimento que não chega e na libertação.
Se nos encontrássemos todas, cada uma acorrentada ao seu rosário de chagas e imperfeições, cada uma prisioneira do seu choro soberana do seu canto, se essa convergência de mundos ocorresse talvez pudessemos por fim vislumbrar a verdadeira face da Deusa e relembrar quem em verdade somos e ao que vimos, nesta parte do todo por onde hoje navegamos.

Diz-se que ninguém vive sózinho. Coexistimos  uns com os outros aqui, com as almas afins e com as outras, mas sobretudo com as alternativas partes de nós mesmos, que noutros mundos vivem o nosso inviável de hoje, exploram os caminhos que se nos fecharam aqui ou registam pela dor os contornos da sombra que escolhemos ignorar.
Coexistimos na saudade do ser inteiro para o qual as personas são só máscaras,  efémeros instrumentos de afirmação de um ego em geral doente, preso da absurda ilusão da superioridade.
Relembrar, trazer de volta os acessos, reconstruir as pontes com o invisível, saber, mas saber deveras, que  percepcionar a vida apenas pelos cinco sentidos nos arredou há milhares de anos de quem verdadeiramente somos.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

PARÁBOLAS

 Com palavras amo, escreveu o poeta. Com palavras canto, danço fantásticos passos de criação,  encontro as matizes secretas das coisas, apalpo ao de leve o pulsar profundo da vida. Com palavras subo à nota mais vibrante da oração, rasgo janelas sobre mundos esquivos, apaziguo as minhas ânsias e dou rosto ao indizível, por momentos deusa efémera do Verbo.
Escritas como se de fonte eterna elas brotassem, as palavras esculpem as minhas horas e aí deixam o rastro do choro ou do êxtase, soluçantes e mágicas, testemunho da passagem.

Com palavras me descubro e me revejo, sem saber que sou aquilo que as palavras me dizem que eu sou. Com palavras amo, sim, e com palavras mato. Exorciso, exerço a tentadora prática da sedução, reponho a verdade e construo a mentira da ilusão. As palavras doces, as intensas, as profundas, as orgásticas. As duras, certeiramente mortais, as ditas palavras de agape e de luz bem como as suas sombrias companheiras do desamor.
Com palavras incito, inspiro, embelezo, castigo, reduzo a cinzas, faço os meus lutos, apoio o outro, lanço no ar perfumes de coisas por saber ou relembrar, invento eternidades no que já passou ou nunca foi. Com  palavras sou maior, sou mais eu e deixo de ser quem sou pois elas transcendem os meus limites conhecidos, ponte entre mim e Eu e mais alguma coisa que não sei o que é mas que vibra em contínuo, inalcançável quase sempre na latência dos dias.

Faço tantas coisas com palavras,  refaço-me a mim e, de cada vez, abrem-se inesperadas brechas para o que eu já era sem o saber. Com palavras eu descubro outras palavras dentro delas, mundos, intermundos, sinapses de um todo incompreensível, estonteante.
Serão parábolas, afinal, formas de me representar e ao fogo que me anima, instrumentos de construção/destruição, assentes num núcleo mórfico e periferias dançantes, laços precários com a eternidade.

Com palavras escrevo, respiro. Não sei o que são, donde vêm, mas habitam-me, poderosamente emotivas e transformadoras e nelas me celebro, no fugaz instante que passa.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

NATAL OUTRA VEZ


Passamos a vida entre símbolos e crenças, tradições e mitos, apoiados num jogo de imagens, sons, hábitos que nos emprestam cor e, às vezes, um certo sentido à vida.
Alguns destes apoios existenciais ligam-se directamente com o coração e com os afectos. Era assim quando, criança, entrava eu numa espécie de estado alterado de consciência com a aproximação do Natal, os seus cheiros, frio, sapatinho na chaminé - onde se materializavam na manhã de Natal  os livros com que sonhara – e a imagem do Menino Jesus nas palhinhas deitado. Havia excitação, muito que fazer, o afecto no coração das pessoas parecia iluminá-las de forma especial quando diziam “É Natal!”, os olhos inundados de uma tolerância inusual.
Claro que não era bem assim, mas deste modo eu sentia a magia do Natal, pretexto para as prendas, as cores quentes e brilhantes dos enfeites, comida boa em abundância, amor, partilha. Eramos todos mais pobres mas que rica eu me sentia com o meu magro orçamento de alguns escudos que sensatamente administrava para que a todos coubesse um miminho.
Passaram anos-luz de lá para cá e parece-me que o que hoje acontece, para além de uma mega operação comercial – também ela em declínio, dada a crise – é um eco vago e muito falseado do Natal que eu conheci e que, a prazo, tenderá a desaparecer.

Contudo, o coração humano precisa de Natais. Carece de processos ritualísticos que mantenham aceso o fogo interno e nos assegurem do efeito-milagre do abraço e da dádiva e de acreditarmos na salvação.

Pelo que o Natal já foi e em nome de um “Natal” futuro, radicado no coração aberto da humanidade, deixo-vos aqui o meu abraço caloroso, amigos e companheiros de rota no planeta Terra, neste histórico ano de 2011.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

FLYING OVER A CUCKOO’S NEST




Sou filha do Universo.

Confundem-se em mim estranhas combinações advindas com certeza de origens diversas e ainda longínquas para a Terra… A Terra onde hoje se vive uma agenda negra e sem esperança. A par desta, contudo, sinto que corre em silêncio uma outra história, dissociada das acções imediatas da humanidade terrestre, um agendamento maior integrado no todo, nos ciclos imparáveis da vida e da morte que depois é vida e a seguir é morte para logo ser vida renascida.

Aquilo que ocorre subjacente à vida de superfície tranquiliza o meu corpo emocional e empresta o único sentido possível para eu estar aqui neste momento transformacional, tempo de síntese e ascensão vibratória para aqueles que as puderem e souberem permitir.



Sempre ocorreram milagres na minha vida. Ou seja, princípios/formulas desconhecidas pelo estabelecido permitiram muitas vezes e de modo inesperado que a improvável saída dos problemas ocorresse. Nunca a mente soube explicar bem estes “fenómenos”, mas algo de muito central/centrado em mim os recebeu, de cada vez, como naturais. Na hora que passa, acentua-se gradualmente a minha ligação consciente a esse nível vibratorio para onde sinto que desce de modo imparável um esplendor sem fim, inerente à própria Vida nas suas ilimitadas possibilidades.

Escangalham-se os acordos, caiem as instiutições – pilares paradigmáticos do mundo tal como o sabemos – esboroa-se o estado social, volatilizam-se como num pesadelo as condições de vida e sobrevivência de milhões, após séculos de duras lutas, sociais e políticas. Ninguém sabe para onde se caminha, mas as previsões são negras.



Algo está, contudo, a mudar em mim pois esse cenário desconhecido não me inquieta. Caminho com a hora que desce sobre o meu ser em escuta, na humildade de nada saber ao certo, entregue e confiante na Vida Maior. Viro-me mais e mais para esse interior inexplorado onde, suspeito, vivem as chaves da salvação. Esse centro cristalino donde emergem as pontes dos afectos, da solidariedade, do impulso artístico e de um canto quente e húmido como o pulsar da vida.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

RIO ACIMA



O que está a acontecer agora?

Multiplicaram-se as coisas para fazer, as solicitações, as dificuldades, o trabalho e os deveres a crescerem brutalmente nos dias da minha vida e este cansaço imenso  dentro do meu corpo, a mente a querer soltar-se, a alma tão desejosa de promover as pontes para uma outra coisa, vibração mais alta, diferente…
 
Se estou entre o Céu e a Terra, o facto é que me sinto a caminhar quase sem descanso por uma estrada aparentemente impeditiva do meu passo, escolhos e esboços de ligações precárias por todos os lados, as coisas a partirem-se, a ajustarem-se, tudo quase, ao milímetro, o sufoco de quem sabe que tem de aguentar, tem de conseguir passar pela porta estreita, que há no profundo da Vida um Oriente para onde os corpos se querem voltar…


Tudo tão relativo, o caminho fez-se para agora ser reconhecido como ilusão, assim que foi importante tudo quanto empreendi, quanto me trouxe até aqui, a este ponto do entrecruzar de forças que me puxam em todas as direcções, mil tentáculos agentes da minha prova-límite, nesta etapa.

Há que escrever tudo de novo, a palavra purificada pelo ouro solar, o encantamento a querer ressurgir numa inocência agora sábia (haverá outra?).

Não fica pedra sobre pedra, pó sobre pó, embora tudo continue lá, na vida de superfície. Sei que busco o Grande Horizonte, os Grandes Mistérios, a Divindade dentro de mim. Não obstante as grades, abismos, tabiques, densidade sufocante, espessos véus encobridores da luz, abro-me sem dúvidas a um Gigante no profundo do Ser.
Já nada é facilmente adjectivável, talvez que a própria qualificação pela palavra já tenha vivido o seu próprio tempo de ilusão e agora tenhamos de a depurar de artificialismos românticos e vãos. Aos poucos, pequenos mas definitivos os passos na auto-escuta.

Prossigo. Titubeante ainda mas tão segura de que por detrás de mim vivo Eu e só a voz desse Eu me saberá guiar rio acima.